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Memórias do Subsolo

Nietzsche via em "Memórias do subsolo" a voz do sangue, enquanto para André Gide tratava-se do ponto culminante da carreira de Dostoiévski. George Steiner, por seu turno, qualificou-o de o mais dostoievskiano dos livros e como a suma da obra do escritor. Ao escrevê-las, em 1864, Fiódor Dostoiévski (1821-1881) abria a fase de sua produção que o consagraria como o autor russo mais conhecido fora de seu país, e um dos mais influentes do século XIX.
O vigor de Memórias do subsolo ecoaria não apenas nos grandes romances subsequentes do autor, como "Crime e castigo" e "Os irmãos Karamázov", mas também anteciparia os abismos e paradoxos da melhor literatura da modernidade, de Kafka a Beckett. Mergulho vertiginoso nas profundezas da alma, em que tiradas filosóficas e intrincados mecanismos mentais convivem com uma verve sarcástica e corrosiva, este monólogo de uma consciência atormentada por sua própria agudeza segue hoje provido de força e pertinência. - Irineu Franco Perpetuo Jornalista e tradutor
Título: Memórias do Subsolo
Título Original: Zapíski iz pódpol'ia (Записки из подполья)
Coleção: Folha Grandes Nomes Da Literatura (vol.07)
Editora: Folha de S.Paulo
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Irineu Franco Perpétuo
Ano: 2016 / Páginas: 128


Memórias do Subsolo é minha segunda experiência com uma obra de Dostoiévski e por mais que esperasse por conflitos e provocações dos mais intensos e por uma história nada otimista, confesso que não estava nada preparado para o que encontrei aqui.
Este romance curto, mas pungente é dividido em duas partes com tons narrativos ligeiramente diferentes entre si. Na primeira, intitulada “O subsolo”, com onze capítulos, o narrador e também o protagonista que em momento algum é nomeado, expõe como que num desabafo muito de si e de sua forma de pensar a sociedade e a sua própria existência como indivíduo na mesma. Narrado do seu porão em São Petersburgo, num monólogo aflitivo e amargurado, ele discorre e reflete sobre questões de ordem existencialistas, sendo ora confuso e ora contraditório por um lado, mas também nos deixando intrigados com sua visão acerca de questões como a racionalidade, o livre-arbítrio, o romantismo e muito mais, não nos poupando de opiniões de moral questionável em favor duma verdade que almeja externalizar através de seu texto.
Na segunda, “A propósito da neve úmida” com mais dez capítulos, ele demonstra de forma concreta situações vividas que corroboram algumas das ideias apresentadas no início através do fluxo de consciência. É também aqui que descobrimos o motivo que o levou a reclusão, ao subsolo. Em sua juventude solitária e almejando alcançar um status social elevado ele acaba sendo humilhado por um antigo grupo de colegas pelos quais não era bem quisto e sofre novamente outra humilhação ao envolver-se com uma prostituta pela qual seus sentimentos conflitantes de atração e repulsa o levam a sucumbir ante as próprias convicções, afundando-se ainda mais no abismo que separa a sua alma e consciência daquilo que de fato vive e experiencia.
Ao contrário de Uma Criatura Dócil em que fiquei absolutamente vidrado na narrativa, em Memórias do Subsolo precisei tomar um fôlego extra para avançar na leitura. O fluxo de pensamento incessante, somado a minha pouca empatia com narrador que pouco faz para agradar (e se o fizesse contradizer-se-ia pois isso vai diretamente contra sua opinião acerca do belo e sublime tão enaltecidos e em voga pelo romantismo) e a quase onipresença da sua voz enfadonha em monólogo, sobretudo na primeira parte, exigiram demais de mim, de modo que lê-lo não foi uma experiência das mais prazerosas ou agradáveis.
No entanto não posso deixar de destacar algumas de suas qualidade e compreendo o fascínio que ele foi capaz de despertar em grandes pensadores, como o próprio Nietzsche citado na sinopse acima e tantos outros.
Entre elas, a forma vívida e perturbadora como o autor expõe através de seu protagonista e narrador aquilo que se poderia chamar de o nosso íntimo mais inescrutável, a camada logo abaixo do nosso próprio subsolo, abaixo da casca que apresentamos diariamente a fim de manter uma convivência social minimamente aceitável, desnudando a própria alma e a consciência expondo tudo aquilo em que ela verdadeiramente acredita, pensa, percebe, rejeita e reprime do mundo para além da sua superfície corpórea.
Além disso o próprio conflito entre esta consciência que se vê o tempo toda podada, sendo incapaz de transpor as barreiras do seu próprio subsolo ou o muro, e que se atormenta tanto por ter ciência desta sua limitação quanto por se descobrir incapaz de superá-la por mais que se force a fazê-lo contrariando algumas expectativas sociais é mostrada de forma desesperadora e angustiante. O narrador em tal ponto convence-se de que talvez o melhor seja não fazer nada, é inútil tentar livrar-se do fardo moral que ele mesmo carrega, e que não sendo um homem de ação, é inútil tentar encontrar um sentido na própria vida.
Tais pontos fazem com que esta obra seja considerada uma das precursoras do Existencialismo, escola filosófica cuja principal prerrogativa é a de que o pensamento filosófico começa com o sujeito humano, através das suas ações, sentimentos e vivência individual e não meramente do sujeito pensante. Algumas das ideias abordadas aqui também serviriam de inspiração para outros romances e personagens do próprio Dostoiévski no decorrer de sua carreira como escritor.
A edição da Folha de S. Paulo conta com uma nova tradução vertida diretamente do russo por Irineu Franco Perpétuo para a Coleção Grandes Nomes da Literatura. No Brasil ainda estão disponíveis as edições traduzidas por Boris Schnaiderman para a Editora 34 e Oleg de Almeida para a Martin Claret entre outras.
Além de divertir e entreter, também é papel da literatura incomodar, nos desestabilizar, nos botar mal e em dúvida e isso Memórias do Subsolo faz o tempo todo. É uma obra única, daquelas que dificilmente você vai se deparar novamente tão cedo, o que só corrobora a originalidade e genialidade do autor. Recomendo Memórias do Subsolo para quem se interessa por livros mais reflexivos e com forte inspiração filosófica, com personagens psicologicamente densos em cuja consciência podemos mergulhar profundamente, mas não esperar sair ilesos e também para quem se interessa por livros que se ocupam da condição humana como um todo, mas aqui partindo mais de um ponto de vista do indivíduo para o todo a sua volta.


Ilustraverso: Poliana Bittencourt

Todo mundo ama uma boa capa, um mapa bem feito e ilustrações apaixonantes, sejam elas em livros, grafic novels, guias ilustrados, para usar de papel de parede ou pelo simples prazer de admirar. Porém nem todo mundo costuma dar a valor a pessoa por trás da arte, mas por sorte aqui é diferente. Quem sabe você não descobre aqui a pessoa que vai ser responsável por aquele presente diferenciado ou para concluir/iniciar aquele projeto que está engavetado: uma HQ ou a capa e ilustrações de um bom livro.
Na sessão Ilustraverso o artista e sua arte tem vez e reconhecimento. O artista da vez é uma ilustradora paulista cujo o trabalho é uma fofura só: conheçam e apreciem o trabalho de Poliana Bittencourt!
Poliana Bittencourt é uma Ilustradora e designer gráfica, com base no estado de São Paulo. Formada em Publicidade e Propaganda. Poliana se considera uma curiosa, sempre buscando aprender e experimentar novos materiais. Apaixonada por animação, arte e publicidade.

Você pode conferir uma amostra da arte aí embaixo e as galerias da artista no Drawcrowd, DeviantArt, Behance e/ou seguí-la no Twitter, Facebook, e/ou no Instagram. Aos interessados em um contato profissional para alguma encomenda, isso pode ser feito pelo contato através do e-mail: 



Audioverso: Ludovico Einaudi


Que o universo da música é tão apaixonante quanto o da literatura, o cinema e as artes ilustradas não há dúvidas! Portanto ele também merece seu espaço aqui no Multiverso X. A seção Audioverso é onde buscamos apresentar novos artistas e bandas, dando um pequeno aperitivo daquilo que de melhor eles têm a oferecer, bem como valorizar a sua arte e contribuir para o seu reconhecimento ao indicar e recomendá-los para um novo público.
O artista de hoje é o pianista e compositor de música erudita Ludovico Einaudi. Nascido em Turim, na Itália, ele era incentivado a tocar desde muito cedo, primeiramente o piano com a mãe e logo na adolescência já começou a compor suas próprias músicas, que escrevia para tocar numa folk guitar. Pouco mais tarde ele estuda Música no Conservatório de Verdi em Milão influenciado pelos trabalhos do compositor Luciano Berio, e forma-se em 1982. Einaudi iniciou sua carreira profissional como compositor de música erudita, mas logo incorporou outros estilos e gêneros às suas composições, incluindo pop, rock, world music, new age e folk music.
Ele possui vários álbuns solo de piano e orquestra, como I Giorni de 2001 inspirado numa viagem à Africa, Divenire de 2006, que inclui Primavera, a sua mais aclamada faixa, Nightbook de 2009 no qual além do tradicional piano, há a presença de sintetizadores dando um novo direcionamento à carreira do músico, e In a Time Lapse de 2013 cujo lançamento contou com turnês nos EUA e Canadá e com uma transmissão ao vivo pelo YouTube na qual Einaudi tocou arranjos solo de algumas faixas ainda inéditas diretamente de sua casa em Milão.
Seu mais recente trabalho, o álbum Elements de 2015 já recebeu verborrágicos elogios da imprensa internacional e propicia uma experiência singular. Gravado no campo, em Langhe, em Itália, Elements é, de acordo com o próprio artista, "uma experiência única, acompanhada pelos ritmos pulsantes de uma primavera explosiva" e resulta "de um desejo de recomeço, de seguir um diferente percurso de consciência". Elements originou ainda em 2016 um EP voltado para a cena de música eletrônica com versões Remix de algumas de suas faixas, entre elas Night, Elements e Drop.
Ludovico Einaudi é atualmente o artista do universo da música clássica que contabiliza o maior número de streams no Reino Unido, mensalmente pelo Spotify somam-se mais de dois milhões e meio de ouvintes, o que nos dá uma boa dimensão da sua popularidade e estatuto. Einaudi também lidera as listas de vendas de música erudita tanto na Inglaterra quanto em seu país de origem, com vendas que já ultrapassam os dois milhões de cópias. Além dos álbuns solo, Einaudi também compôs inúmeras músicas para trilhas sonoras de filmes, trailers, seriados de TV e spots comerciais.
Se você gosta de música instrumental, sobretudo aquelas com um tom mais simples, minimalista, mas nem por isso menos expressivas ou tocantes, irá apreciar muito o trabalho de Einaudi. Há uma lógica emocional profunda e satisfatória em seus arranjos oníricos no piano que já o fizeram ser comparado a Chopin. Suas composições são ideais para aqueles momentos em que você quer relaxar ou simplesmente se inspirar e possuem arranjos modernos fascinantes e envolventes, um verdadeiro deleite musical para os ouvidos e para a alma! Experimente!
Você pode conferir uma pequena amostra da música de Ludovico Einaudi nos vídeos abaixo e ao longo da postagem e conhecer mais visitando o Site Oficial e os perfis do artista no Facebook, YouTube, Twitter e Instagram. Os álbuns, e singles podem ser adquiridos em formato digital tanto na iTunes quanto na Playstore e estão disponíveis também para audição em plataformas de streaming como o Spotify e o Deezer.



25 de Março! Dia de Ler Tolkien - #TolkienReadingDay 2017

Reservar alguns minutos do dia 25 de Março para ler algum trecho das obras de J. R. R. Tolkien já é uma tradição entre os deste autor. A data marca a queda de Sauron e Barad-dûr em Mordor e com isto o Fim da Guerra do Anel como é narrado na trilogia O Senhor dos Anéis sendo um marco histórico dentro da ficção tolkieniana.
O Dia de Ler Tolkien é organizado e promovido pela Tolkien Society desde 2003 e incentiva os fãs a celebrarem a vida e a obra de J. R. R. Tolkien lendo ou relendo algumas de suas passagens favoritas neste dia. A Tolkien Society encoraja ainda que museus, livrarias e escolas realizem os seus próprios eventos de leitura e discussão das obras do Professor por todo o mundo.
Todo ano também é escolhido um tema para ser observado e discutido mais a fundo e o de 2017 é “Poesia e Canções na obra de Tolkien”. O autor escreveu muitos poemas e canções ao longo de sua vida literária e acadêmica, desde a poesia aliterante inspirada na antiga arte de versificação anglo-saxã até os poemas de rimas livres, para serem declamados ou cantados, que pontuam toda a saga da Guerra do Anel. A inserção destes elementos contribui significamente para criar no leitor a sensação de profundidade no texto e confere uma certa consistência interna ao universo criado por Tolkien, são estes pequenos detalhes que dão vida à Terra-média. Tal é a importância da música que a própria criação de Eä (o mundo) se deu com um concerto musical conduzido por Eru Ilúvatar e os Ainur narrado de forma esplendorosa e permeada de símbolos e significados no Ainulindalë, a Música dos Ainur, o primeiro livro d’O Silmarillion.

O tema deste ano é amplo e pode propiciar uma completa redescoberta de um aspecto importante e cerne da constituição de mundo tolkieniana, mas que por vezes passa batido em meio aos acontecimentos grandiosos de sua narrativa. Basta um novo olhar e inúmeras e impressionantes percepções da cultura e personalidade dos povos da Terra-média podem ser encontrados em versos e canções espalhados ao longo dos livros! A poesia élfica da Terceira Era se caracteriza pela nostalgia dos noldor exilados de Valinor, a canção de Béren e Lúthien, uma das mais belas histórias de amor entre um homem e uma princesa élfica também faz referência aos astros, aludindo ao despertar sob as estrelas dos primeiros Eldar. Numa poesia épica humana sobre quando Aragorn conclama os Mortos a acertarem a antiga dívida com a Casa de Elendil sobressai o tema da redenção através do combate. Na poesia dos rohirrim ressoam os feitos heróicos com o tom dos épicos de cavalaria anglo-saxões, enquanto nas canções anãs são exaltados os ofícios com pedras preciosas e metais, ao passo que nos poemas dos hobbits a maior preocupação é com o conforto e a boa comida e bebida em estalagens. E o que dizer da complexa composição encontrada na Balada de Eärendil, da canção do povo da Cidade do Lago sobre o retorno do Rei sob a Montanha ou das cantigas ambíguas e enigmáticas de Tom Bombadil? Isso apenas para citar alguns dos muitos exemplos encontrados nos livros, abra-os e deixe a imaginação voar!
As excelentes trilhas sonoras dos filmes de Peter Jackson e uma imensa quantidade de músicas inspiradas nas obras de Tolkien por bandas de rock e metal tais como Blind Guardian, Megadeth, Led Zeppelin, Black Sabbath e outras também são opções válidas para celebrar a obra de Tolkien dentro do tema proposto pela Tolkien Society para este ano, despertando o interesse e permitindo que o fã se aprofunde ainda mais no fascinante universo de fantasia tolkieniano que há muito já deixou as páginas dos livros expandindo-se para as mais diversas mídias. O Whiplash tem um artigo excelente sobre a influência de Tolkien no rock e heavy metal e o Mapingua Nerd listou outras dez coisas pra fazer neste dia além de ler e tão legais quanto!
A data também é importante para lembrar fatos marcantes relativos a biografia do autor e sua obra. Em 2017 além de comemorarmos os 125 anos de nascimento do autor, também celebramos os 100 anos de início da própria Terra-média com os primeiros manuscritos do The Book of Lost Tales, os 80 anos da primeira publicação de O Hobbit e do início da escrita de O Senhor dos Anéis e os 40 anos da primeira publicação de O Silmarillion.
Há diversos livros de Tolkien disponíveis no Brasil e as opções de leitura são as mais variadas possíveis, desde o trio básico: O Hobbit, O Senhor dos Anéis (A Sociedade do Anel, As Duas Torres, O Retorno do Rei) e O Silmarillion, até os que se aprofundam na cultura e mitologia da Terra-Média: Os Filhos de Húrin, Contos Inacabados, A Última Canção de Bilbo, As Aventuras de Tom Bombadil (altamente recomendado pelo tema deste ano), os livros infanto-juvenis e de contos: Mestre Gil de Ham, Mr. Bliss, Árvore e Folha, Ferreiro de Bosque Grande, Roverandom, As Cartas do Papai Noel, além dos trabalhos acadêmicos do professor e dos que envolvem outras mitologias: A História de Kullervo, A Queda de Artur, Sigurd e Gudrún, Beowulf e das cartas, biografias, atlas e ensaios de críticos sobre as obras do Professor. A data também pode servir de estímulo para uma releitura completa ou marcar o início de uma nova leitura de uma obra de Tolkien que ainda lhe seja inédita. Opções não faltam!
Compartilhe conosco e com o mundo o que você vai estar lendo ou fazendo neste dia, comente sobre os seus trechos favoritos, debata sobre os livros e as histórias com os amigos e ajude a espalhar esta tradição nas suas redes sociais com as hashtags #TolkienReadingDay e #DiaDeLerTolkien. É altamente recomendável acompanhar também as atividades das Tocas do Conselho Branco, do Tolkien Brasil e do Valinor, as maiores referências em Tolkien no Brasil.
Estamos sempre mudando, nunca seremos mais os mesmos hobbits que éramos, mas nunca é tarde para retornar ao lar! E falando em Hobbits vou me permitir citar um trecho de um dos meus poemas favoritos, declamado por Bilbo ao voltar de sua grande aventura e avistar após muito tempo o Condado e a Colina:

(...) Estradas sempre em frente vão
Sob nuvens e estrelas a passar,
Mas os pés que percorrem os caminhos
Um dia para casa vão voltar.
Os olhos que fogo e espada conheceram
E em antros de pedra horror pungente,
Um dia verdes prados recontemplam
E as colinas e as matas de sua gente.



A História de Kullervo

Kullervo, filho de Kalervo, é talvez o mais sombrio e trágico de todos os personagens de J.R.R. Tolkien. O infeliz Kullervo, como Tolkien o chamou, é um desafortunado menino órfão com poderes sobrenaturais e um destino trágico.
Criado na propriedade do sombrio mago Untamo, que matou seu pai, raptou sua mãe e tenta matá-lo três vezes ainda menino, Kullervo está sozinho exceto pelo amor de sua irmã gêmea Wanona, e protegido pelos poderes mágicos do cão negro Musti. Quando Kullervo é vendido como escravo, jura vingança contra o mago, mas aprenderá que, mesmo no momento da vingança, não há como escapar do mais cruel dos destinos.
Tolkien escreveu que A história de Kullervo era o germe de minha tentativa de escrever lendas minhas, e que era um aspecto importante nas lendas da Primeira Era; seu Kullervo foi o ancestral de Túrin Turambar, trágico herói incestuoso de Os filhos de Húrin. Além de ser uma história poderosa por si só, A história de Kullervo, publicada aqui pela primeira vez com os rascunhos, as notas e um ensaio-conferência do autor (juntamente com comentários de Verlyn Flieger, responsável pela edição original desse título) sobre sua obra-fonte, o Kalevala, é uma pedra fundamental da estrutura do mundo inventado por Tolkien.
Título: A História de Kullervo
Título Original: The Story Of Kullervo
Editora: WMF Martins Fontes
Autor: J. R. R. Tolkien, Verlyn Flieger
Tradução: Ronald Eduard Kyrmse
Ano: 2016 / Número de páginas: 188

A História de Kullervo é um dos primeiros manuscritos de J. R. R. Tolkien, uma tentativa de reescrever em prosa e verso um dos muitos contos que compõem o Kalevala, um conjunto de lendas, mitos e canções populares noruegueses inicialmente compilados da tradição oral no século XIX por Elias Lönnrot.
Após ficar fascinado com a leitura destas histórias, ainda que numa tradução para o inglês que não o satisfez completamente, Tolkien decidiu por conta própria estudar a gramática norueguesa para lê-los em sua fonte original. Por serem um compilado da tradição oral havia nestas histórias muitas lacunas não explicadas e contradições entre várias versões ainda que Lönnrot tenha feito um esforço para torná-las uma narrativa única e coesa. Isto deu a Tolkien liberdade para retrabalhar uma dessas histórias a fim de torná-la mais consistente e eis aí a origem do manuscrito A História de Kullervo.
Nele somos apresentados a Kullervo, um menino órfão desafortunado, dotado de poderes mágicos, mas fadado a um destino trágico. Kullervo é filho de Kalervo que fora morto numa guerra movida por pura inveja e ambição pelo sombrio mago Untamo, e que após vencê-lo, tomou sua esposa e filhos como servos. Criado como pária no reino de Untamo, Kullervo conta apenas com o amor fraternal de sua irmã gêmea Wanona e a proteção do cão negro Musti que outrora fora fiel também a Kalervo. Untamo tenta matar Kullervo três vezes sem sucesso e decide livrar-se do rapaz vendendo-o como escravo. Kullervo então jura vingança pelo pai, pela mãe e pela irmã contra Untamo a quem culpa por todo o infortúnio que é a sua vida. Ao fazer esta escolha ele sela seu destino, e a vingança, por mais justa que pareça, é um caminho trágico e sem volta para aqueles que resolvem trilhá-lo.
Este livro reúne o manuscrito inacabado com esta história e dois ensaios sobre o Kalevala de autoria do próprio Tolkien além de muito material extra na forma de prefácios, notas e comentários e posfácios de Verlyn Flieger. A História de Kullervo é então um estudo sobre o primeiro manuscrito de Tolkien, sua primeira tentativa de escrever um conto tendo como base uma história já existente colhida do folclore norueguês. Ao lê-lo é preciso ter em mente o que ele é a fim de se evitar expectativas frustradas por mera ingenuidade, de modo algum este livro se trata de um novo O Hobbit.
A História de Kullervo tal qual concebida por Tolkien é um esboço ainda muito inicial do potencial imaginativo e narrativo que ele demonstraria ter muitos anos mais tarde. Lê-la é ter contato com um jovem Tolkien ainda experimentando recursos narrativos, errando e acertando enquanto ainda ensaiava alguns arroubos criativos e descrições fantásticas que o tornariam famoso e aclamado posteriormente através de suas obras mais famosas. A História de Kullervo é o elemento de ligação entre as mitologias do Kalevala e do Silmarillion, é o produto inacabado dum autor iniciante percorrendo o caminho entre a imitação e a invenção. Lê-la também é ter contato com uma das maiores paixões de Tolkien: o estudo dos mitos e a ligação indistinguível entre a linguagem e a mitologia que ele de forma tão veementemente defenderia anos mais tarde em Árvore e Folha e o que buscou construir para a Inglaterra com as línguas élficas e o Silmarillion.
O conto em si é curto e não é tão atrativo de ler, Kullervo não nos cativa por nada mais a não ser sua trajetória fadada à tragédia desde o seu nascimento. Num âmbito mais emocional a sua história é deprimente, não há chance de redenção e tudo em sua vida é uma sucessão de maus augúrios e infortúnios. Em sua história temos a oportunidade de ver Tolkien trabalhar temas pesados e pouco comuns em suas outras obras tais como o incesto e o suicídio.
O trabalho de pesquisa, edição e análise literária desenvolvido por Verlyn Flieger nestes rascunhos e esboços do autor merece destaque. Ela é especialista em estudos de mitos e mitologia comparada e entusiasta de Tolkien, já tendo publicado vários artigos e livros sobre o autor, sendo também a responsável pela edição comentada de Ferreiro de Bosque Grande. Suas notas e comentários explicam, contextualizam e nos ajudam a entender referências mitológicas, apontam detalhes e fazem correlações com outros trabalhos do autor. Juntamente com os Ensaios do próprio Tolkien sobre o Kalevala são as partes mais interessantes e proveitosas deste livro e serão um deleite para quem já conhece boa parte do legendarium do autor ou se interessa por mitologias diversas.
Para quem ainda não conhece Tolkien ou está mais interessado em narrativas fechadas e coesas produzidas por este autor, A História de Kullervo não é leitura recomendada já que é mais um estudo literário que analisa um de seus primeiros e inacabados esboços cuja importância e relevância só é percebida em sua totalidade quando posto ao lado de toda a produção posterior do autor.
A edição nacional de A História de Kullervo chegou às livrarias em maio de 2016 pela WMF Martins Fontes, seguindo o padrão gráfico e de qualidade das outras obras de Tolkien publicadas por esta casa. Assim como na edição original da Harper Collins, a capa traz a ilustração “A terra de Phoja” cuja autoria é do próprio Tolkien e a tradução ficou a cargo de Ronald Eduard Kyrmse, responsável também pelas traduções de quase toda a bibliografia disponível em língua portuguesa e um dos maiores especialistas neste autor no Brasil.
Recomendo A História de Kullervo para quem se interessa por folclore e mitologias de culturas diversas, em especial uma dotada de particularidades únicas como o próprio Tolkien evidencia em seus ensaios e ainda tão pouco conhecida e estudada quando comparada à helênica, nórdica, celta e outras e claro, para os já fãs de Tolkien e sua própria mitologia, sobretudo os que já conhecem ou estão familiarizados com a história de Túrin Turambar, importante personagem de O Silmarillion e de Os Filhos de Húrin cuja inspiração deve muito ao seu predecessor Kullervo e também para aqueles que tem curiosidade genuína sobre a gênese da própria Terra-Média da qual A História de Kullervo é precursor geral.


Multiverso X.:16 - Mulheres Para Ler e Conhecer






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Inspirados pela ação #OPodcastéDelas organizada por Domenica Mendes do CabulosoCast e Rodrigo Basso do Covil de Livros, o capitão Ace Barros, o navegador Airechu, o piloto da Interlúdio Julio Barcellos e uma entusiasmada imediata Hall-e se juntaram para mais um podcast de indicações. Dessa vez indicando mulheres de dentro e fora da ficção que inspiram a equipe em algum ponto.
Ouça e descubra o quem são As Empoderadas, o grupo de super heroínas criado por Germana Viana; desafie governos autoritários e mostre sua força junto com Katniss Everdeen e Suzanne Collins;  conheça - e procure ler - Alice Munro, a primeira contista a receber o Nobel de Literatura; conheça Janny Wurts e como ela ajudou a construir a história de Mara dos Acoma, de uma quase sacerdotisa à Senhora do Império. 
Acompanhe-nos, estimado explorador de universos!

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Bidu: Caminhos & Juntos


Bidu: Caminhos - Os autores Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho reimaginam de modo belíssimo a forma como Bidu e Franjinha, os dois primeiros personagens criados por Mauricio de Sousa, se tornaram melhores amigos. Uma aventura cheia de problemas, surras, desvios de rota, chuva, cachorros, decisões difíceis e ternura.
Bidu: Juntos - De repente, Bidu deixou as ruas e passou a ter um dono. Mas essa nova emocionante realidade vai trazer muitas dúvidas e problemas, tanto para ele quanto para o pequeno Franjinha. E é isso que os autores Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho contam em Juntos, mais uma divertida e emocionante Graphic MSP do cãozinho azul criado por Mauricio de Sousa.
Título: Bidu - Caminhos & Bidu - Juntos
Autor: Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho 
Série: Graphic MSP
Editora: Panini Comics/ Maurício de Sousa Produções
Número de Páginas: 80

Hoje teremos uma postagem um pouco diferente do habitual. Tudo bem, não tão diferente assim. Contudo essa não será apenas uma simples resenha, mas uma analise dupla das Graphic Novels do Bidu, personagem do Maurício de Sousa. Porquê não falar delas individualmente? Porque ambas as edições merecem os mesmos elogios e comentários, e não acabaríamos tendo duas postagens muitíssimo parecidas. Fundamental mesmo é conhecer essas histórias deliciosas!


Em Bidu - Caminhos somos levados para a história de como as histórias de Bidu e Franjinha se cruzam, ou como dito por nosso narrador canino: "Quando conheci o meu melhor amigo". É assim, partindo de um plot simples que Eduardo Damasceno e Luís Felipe Garrocho nos levam entre os caminhos que ligam esses pontos. De um lado acompanhamos as idas e vidas de Bidu, até então um cão de rua, sem nome ou lar, enfrentando intempéries, procurando comida, fazendo amizades e evitando problemas. Nada muito diferente de diversos cães e gatos que nos deparamos todos os dias por aí. Do outro lado temos o pequeno Franja, um garoto inventivo que quer de sua mãe apenas um cãopanheirinho para suas aventuras, um amigo de quatro patas para brincar e amar. Mas até que esse encontro aconteça, muitas coisas vão acontecer, personagens conhecidos vão aparecer e diversas emoções vão ser despertas no leitor.
Já em Bidu - Juntos acompanhamos o desenvolver dessa relação entre cão e humano, a adequação ao novo lar, a aprendizagem sobre o que pode e não pode fazer,conhecer e entender um ao outro. Quem tem ou já teve um animal, principalmente na infância, algum dia sabe bem o que é isso. Aqui temos um Bidu tentando se adequar a nova vida, a nova casa e aprendendo que as coisas não são sempre como lhe parecem. Já o Franjinha precisa aprender a cada instante a lidar com a responsabilidade de se ter um animalzinho. Nem tudo se resume a brincar e levar para passear. É claro que somos agraciados com novas participações e com um belo desenvolvimento de personagens, e a cada virada de página rimos e choramos com essa dupla. 
Os autores, em ambas as narrativas, souberam trabalhar muito bem a questão da leitura imagética e reforçaram a máxima que diz "Uma imagem vale mais que mil palavras". Mesmo com pouco, ou nenhum texto, as histórias contadas atingem seus objetivos de fazer-se entender, entreter e emocionar o leitor. E mesmo tratando-se de tramas simples elas são belas e bem trabalhadas.
O trabalho artístico da dupla Damasceno e Garrocho é simplesmente encantador. Cada detalhe da composição - o modo como as onomatopeias são inseridas como partes naturais dos quadros, as imagens que representam os diálogos entre os animais - colaboram para passar ao leitor as emoções desejadas. O traço é sensível e expressivo, e o design dos personagens apaixonante.
Os extras sobre a produção das obras só nos fazem querer cada vez mais de Bidu (por favor MSP, tragam capas alternativas como extras!!!).
A série Graphic MSP vai muito além das homenagens aos personagens e da obrigatoriedade de criar clássicos com os personagens da nossa infância. Ela se torna essencial na estante de qualquer fã da Turma da Mônica e de quadrinhos pela qualidade empregada no trabalho e pela capacidade de causar diversas emoções mesmo nas histórias mais simples. E tanto Bidu - Caminhos quanto Bidu - Juntos, não fogem a essa regra.

Lolita

Lolita é um dos mais importantes romances do século XX. Polêmico, irônico, tocante, narra o amor obsessivo de Humbert Humbert, um cínico intelectual de meia-idade, por Dolores Haze, Lolita, 12 anos, uma ninfeta que inflama suas loucuras e seus desejos mais agudos. A obra-prima de Nabokov, agora em nova tradução, não é apenas uma assombrosa história de paixão e ruína. É também uma viagem de redescoberta pela América; é a exploração da linguagem e de seus matizes; é uma mostra da arte narrativa em seu auge. Através da voz de Humbert Humbert, o leitor nunca sabe ao certo quem é a caça, quem é o caçador.
Nabokov compôs a maior parte do manuscrito - que ele mesmo chamou de "bomba-relógio" - entre 1950 e 1953. Nos dois anos seguintes, ouviu recusas de cinco editoras norte-americanas ("pura pornografia", disse-lhe uma). Em 1955, foi finalmente aceito por uma obscura editora francesa, a Olympia Press. Em junho, assinou o contrato; em outubro, recebeu os primeiros exemplares, cheios de erros tipográficos.
O livro inicialmente não foi bem-recebido; uma revista pensou em publicar trechos, mas foi desaconselhada por advogados. No início de 1956, sua sorte mudou. Graham Greene havia colocado Lolita entre os melhores livros de 1955 numa edição do Sunday Times. A repercussão cresceu; em agosto de 1958, foi finalmente publicado nos EUA. Em setembro, alcançou o primeiro lugar na lista de mais vendidos. O sucesso faria com que Nabokov deixasse de dar aulas para viver apenas de sua literatura.
Título: Lolita
Título Original: Lolita
Editora: Alfaguara
Autor: Vladimir Nabokov
Tradução: Sergio Flaksman
Ano: 2011 / Páginas: 392


Assim como Moby Dick, Lolita é mais um destes livros cuja simples menção do título já nos traz logo à mente algumas impressões de senso comum tamanha é a fama que alcançaram no imaginário popular. O próprio termo “lolita” cunhado pelo autor é amplamente usado hoje para referir-se a adolescentes do sexo feminino sexualmente atraentes, um arquétipo da própria protagonista que dá nome ao livro. Escrito por Vladimir Nabokov em 1955 e publicado pela primeira vez na França, Lolita é tido como uma das maiores realizações na literatura do século XX frequentando diversas listas de melhores romances em âmbito mundial e certamente é também um dos mais polêmicos e controversos pela sua temática, já tendo também recebido diversas adaptações para o teatro e duas para o cinema, uma em 1962 com direção de Stanley Kubrick e outra em 1997 por Adrian Lyne.
“Lolita, luz da minha vida, fogo da minha carne. Minha alma, meu pecado. Lo-li-ta.” é com essas doces e românticas palavras que Humbert Humbert, o protagonista e também o narrador cínico e narcisista desta história, um professor universitário especializado em literatura francesa, recém chegado da Europa aos Estados Unidos inicia seu relato no qual descreve sua obsessão avassaladora por Dolores Haze, apelidada por ele de Lolita, sua enteada de apenas doze anos, com quem se envolve sexualmente após a morte de Charlotte Haze, a mãe e esposa, tentando justificar as suas atitudes a todo o custo recorrendo aos mais diversos argumentos enquanto nos leva a percorrer as memórias dos anos em que passou na companhia da garota. Nele também são contados o inicio da vida sexual do protagonista, o surgimento do seu desejo pervertido por jovens pubescentes, seus primeiros e frustrantes relacionamentos com adultas, a história dum casamento que termina em divórcio na Europa, sua ida aos Estados Unidos e muitos outros acontecimentos até o fatídico dia em que ele conhece a garota que o levaria aos extremos de sua perversão.
Tão logo foi publicado, Lolita instantaneamente tornou-se um clássico, seu tema forte, polêmico e perturbador aliados à uma escrita sedutora e envolvente conduzindo um drama eletrizante além da crítica escancarada ao modo de vida e a moralidade norte-americana na visão de um europeu e de um escritor russo sem dúvidas contribuíram imensamente para isso. Acredito que ele possa servir como um alerta a tipos como Humpert Humpert ao passo que nos oferece uma visão, por mais repulsiva que seja da mente doentia de um homem como ele e por mais que eu o condene por tudo o que fez não posso ser hipócrita de dizer que não me apiedei dele em certos momentos e me detestei por isso. Mesmo que tudo não passasse de pura lábia e dissimulação, a besta acuada acabou por revelar-se tão falível e humana em seu sofrimento quanto qualquer um de nós. Isso impressiona e incomoda, enquanto leitores somos um mero joguete para as suas palavras e ele brinca com nossa mente, sentimentos e moralidade da mesma forma que um gato brinca perseguindo um rato. Este convite a uma reflexão interna nos leva a conclusões bem assustadoras sobre nossos próprios instintos, bestialidade, compulsões e perversões. Em maior ou menor grau, queiramos ou não, carregamos em nós um pouco destes elementos e muito do choque com a leitura reside desse confronto que fazemos com este narrador ardiloso e nada confiável.
Lolita, ou melhor, Dolores Haze, a vítima do abusador, é praticamente silenciada na narrativa, temos pouco ou quase nada de sua personalidade e visão diante da sua própria condição. Ela é meramente um fetiche aos olhos de Humbert que em sua prosa a objetifica sexualmente e a enche dos mais variados mimos e defeitos, muitos dos quais nada mais são do que hábitos tipicamente comuns no comportamento infantil ou adolescente. Humbert a reveste com a aura duma entidade mítica pervertida, uma ninfeta, encarregada unicamente da tarefa de seduzí-lo e tentá-lo com seu encanto demoníaco. Impossível não se apiedar da criança, é preciso ter isto em mente o tempo todo, Lolita é apenas uma criança, uma vítima das circunstâncias, da omissão e da obsessão de um louco, e Humbert sabe ser convincente e é fácil ser enganado por sua lábia. Ele enquanto narrador sabe que você, leitor, o julga por cada ação e é extremamente cuidadoso com o que conta e da forma que conta, ele mesmo se assume como um pedófilo e confessa seus atos nos momentos certos, forçando conosco uma cumplicidade, uma certa simpatia e conivência que ao longo de páginas e páginas faz com que nos habituemos com a situação de abuso e no mar de divagações percamos o foco: é um livro sobre um pedófilo tentando a todo custo justificar seu crime. Discordo totalmente das interpretações que conferem ao sentimento de Humbert contornos românticos “Você devastou a minha vida!” provavelmente diria Lolita como ele mesmo sugere em dado momento, é perverso e cruel demais interpretá-lo desta forma.
A edição em português mais recente é da Alfaguara e conta com uma nova tradução de Sergio Flaksman (as anteriores eram de Brenno Silveira e Jorio Dauster) e traz um ensaio do próprio Nabokov publicado alguns anos após o romance onde o autor fala um pouco da gênese do livro, cita suas fontes de inspiração e comenta sobre sua aura polêmica. A edição traz também um posfácio de Martin Amis no qual, entre outras coisas, ele destaca a crueldade como tema central da obra. Senti falta de traduções para os termos e expressões em francês amplamente presentes na prosa de Humbert, mas pela frequência entendo que notas de rodapé mais atrapalhariam o ritmo da leitura do que ajudariam na compreensão dos mesmos que pode ser aferida facilmente observando o contexto em que são usadas.
Lolita é um livro incômodo e provavelmente levará os leitores mais sensíveis ao asco e à repulsa, seu ritmo varia propositalmente pela quantidade de digressões sobretudo em sua segunda e última parte. Ainda assim, todo o texto é duma beleza e capricho intrigante, têm uma eloquência própria, carregada de camadas, referências e sarcasmo, é sensual, cômico, dramático e angustiante ao mesmo tempo. A habilidade de Nabokov, que deu vida à pena voraz e ardil de Humbert, é inquestionável. Não há nele nada tão explícito e Humbert deixa que imaginemos muito do que acontece, o que é pior ainda do que se descrevesse, e assim a sua história e a de Dolores é levada enfim às últimas consequências. Humbert é um personagem trágico que sucumbe às próprias perversões, ao passo que Dolores é a vítima indefesa ideal da qual só nos resta lamentar pela triste sina na qual acaba enredada. É um livro do qual sobram adjetivos, mas é difícil explicar e recomendar, apenas vá em frente e encare!