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Araruama - O Livro das Sementes


Em Araruama, o momento do nascimento é um ritual sagrado. Monâ, a mãe do tempo e de todas as coisas, costura a duração de vida dentro do corpo de cada criança. Ao som das palavras de Majé Ceci após o parto, cada destino é selado: Kaluanã, nascido para uma vida mais longa que os números podem dar conta; Obiru, o capanema que morrerá jovem, destinado a descascar mandioca sob o olhar de desgosto do pai; Apoema, a que vê além e sonha em voar.
Em O Livro das Sementes, o primeiro volume da série, o leitor é transportado para uma realidade dura e encantada, onde as palavras são magia, a floresta é o mundo e forças determinam o equilíbrio da Ibi, a terra. A harmonia se baseia nas regras dos deuses, onde morte e vida, caça e caçador convivem até que a luz se apague.
Mas este ciclo tão familiar pode estar com os dias contados, pois sobre a Ibi se espalha um sentimento novo e incômodo: uma “fome sem apetite”, uma paixão pelas pedras derretidas. É o anúncio de que tempos sombrios estão por vir, sob formas nunca vistas antes – e os destinos das crianças de Araruama estão tão entrelaçados como raízes retorcidas.
Título: Araruama - O Livro das Sementes
Autor: Ian Fraser
Editora: Moinhos
Páginas: 228


As vezes uma história pode ser maior que as páginas que a contem. Assim é com Araruama - O Livro das Sementes, obra do conterrâneo soteropolitano Ian Fraser.
Em um tempo encantado onde as coisas tinham outros nomes e as histórias eram passadas às gerações através da oralidade, quando deuses não eram só lendas e as sete tribos dos homens habitavam a Ibi em harmonia, uma nova história começou a ser construída.
Nesse tempo fantástico e ainda cru, todas as crianças das tribos passam pelo ritual do amam paba ao nascer. As Majé, às sábias curandeiras agraciadas por Monâ, conseguem dizer o tempo natural de vida de cada recém-nascido. O aman paba é a base para toda a sociedade, e ajuda a estabelecer os papéis nas tribos: quem tem o maior aman paba está destinado a grandezas enquanto os de menor aman paba não são dignos de receber qualquer aprendizado.
Quando os ventos da mudança sopram com força trazendo consigo uma sombra e sentimentos ainda sem nome, acompanhamos o crescimento e desenvolvimento de crianças de tribos e posições distintas, que terão que provar sua honra e força enquanto o mundo esta prestes a mudar. As sementes da criação daquilo que um dia será Araruama.

Com uma narrativa por vezes bela e poética, Ian Fraser cria em Araruama um universo fantástico e original profundamente rico em detalhes e descrições, com raízes cravadas na cultura dos povos indígenas, fauna e flora das Américas. Ao mesmo tempo em que somos apresentados a um cenário novo e cativante, a obra traz uma gostosa sensação de proximidade, e consegue despertar o interesse pelas culturas que o inspiraram.
A escrita do autor é envolvente e encantadora, e, apesar da dificuldade causada pelo vocabulário próprio presente na obra, nos enreda e nos transporta para a história daqueles jovens, especialmente os cinco que ganham maior destaque através dos capítulos que os acompanham. Fraser consegue fazer um excelente uso de uma obra tão curta, pouco mais de duzentas páginas, ao entregar diversas histórias, cada qual com a sua característica particular, desenvolvendo todos os elementos de forma satisfatória, e nos deixar instigados por mais.
Durante a leitura, fui conquistado por cada detalhe dessa construção de mundo bem executada, pela originalidade e fuga da fantasia de ares europeus, pela poesia e paixão transmitidas através das palavras, mas também pelos personagens que guiam a trama e as reflexões trazidas em seu desenvolvimento. Obiru, Apoema, Kaluanã, Eçaí e Batarra Cotuba, e também aqueles coadjuvantes que os cercam, são personagens muito bem trabalhados e é difícil não se conectar com ao menos um deles em algum nível durante suas jornadas particulares.
A capa e ilustrações de Paulo Torinno, bem como os elementos internos do trabalho gráfico, reforçam o tom fantástico e característico da obra.
Ultrapassada a barreira do estranhamento inicial, Araruama: O Livro das Sementes se mostra uma obra de fantasia singular e primorosa, que supera seus problemas menores e se destaca não apenas por sua proposta, mas pela qualidade do que é entregue. Uma leitura muito mais do que recomendada, em especial a todo bom amante da fantasia, e o inicio de uma auspiciosa jornada.