BEM-VINDO VIAJANTE! O QUE BUSCA NO MULTIVERSO?

Senhor das Moscas

Publicado originalmente em 1954, Senhor das Moscas é um dos romances essenciais da literatura mundial. Adaptado duas vezes para o cinema, traduzido para 35 idiomas, o clássico de William Golding — que já foi visto como uma alegoria, uma parábola, um tratado político e mesmo uma visão do apocalipse — vendeu, só em língua inglesa, mais de 25 milhões de exemplares.
Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião cai numa ilha deserta, e seus únicos sobreviventes são um grupo de meninos em idade escolar. Eles descobrem os encantos desse refúgio tropical e, liderados por Ralph, procuram se organizar enquanto esperam um possível resgate. Mas aos poucos — e por seus próprios desígnios — esses garotos aparentemente inocentes transformam a ilha numa visceral disputa pelo poder, e sua selvageria rasga a fina superfície da civilidade, que mantinham como uma lembrança remota da vida em sociedade.
Ao narrar a história de meninos perdidos numa ilha paradisíaca, aos poucos se deixando levar pela barbárie, Golding constrói uma história eletrizante, ao mesmo tempo uma reflexão sobre a natureza do mal e a tênue linha entre o poder e a violência desmedida.
A nova tradução para o português mostra como Senhor das Moscas mantém o mesmo impacto desde o seu lançamento: um clássico moderno; um livro que retrata de maneira inigualável as áreas de sombra e escuridão da essência do ser humano.
Título: Senhor das Moscas
Título Original: Lord of the Flies
Autor: William Golding
Editora: Alfaguara
Tradução: Sérgio Flaskman
Ano: 2014 / Número de páginas: 224


Escrito enquanto William Golding lecionava numa escola católica para meninos em Salisbury, na Inglaterra, Senhor das Moscas, seu primeiro romance e também o de maior sucesso, é tido como um dos grandes clássicos da literatura do pós-guerra. Golding estudou ciências naturais em Oxford e serviu na marinha britânica na Segunda Guerra Mundial, experiência que influenciou boa parte de sua obra e sobre a qual disse: "Qualquer pessoa que tenha passado por esses acontecimentos terríveis sem entender que o homem produz o mal como a abelha produz o mel estava cega ou louca".
Senhor das Moscas através de sua alegoria protagonizada por crianças trata exatamente da maldade intrínseca ao âmago humano. Na trama, um grupo de meninos dum colégio inglês com idades entre cinco e quatorze anos sobrevive a um acidente aéreo quando eram levados para longe da guerra. O avião faz um pouso forçado numa ilha paradisíaca, de clima tropical e completamente deserta. Com a morte de todos os adultos responsáveis pelos garotos no acidente, livres e sós, agora cabe a eles mesmos tomar as suas próprias decisões para sobreviverem naquele novo ambiente.
Logo dois grupos distintos são formados e as divergências em torno de quais devem ser os objetivos principais de todos eles vão acirrar as brigas e levá-los a perder o controle transformando a ilha num verdadeiro campo de guerra. O primeiro grupo é liderado por Ralph, um dos garotos mais velhos e escolhido por voto como líder de todos. Seu maior objetivo é manter uma fogueira sempre acesa e assim, com a fumaça, atrair a atenção para um resgate. O segundo grupo é liderado por Jack, antes o líder do coral do colégio, e que passa a comandar seus amigos com disciplina marcial, incitando-os sempre a caçar e matar porcos para se alimentarem já que logo eles enjoam das frutas da ilha. Porquinho, um terceiro personagem, vítima das chacotas de todos devido a sua aparência e ignorado por boas parte deles tem um papel de destaque no conflito entre Ralph e Jack, além de ser durante a maior parte do tempo a voz mais sensata e dotada de razão entre todos os garotos. Seus óculos de grau são um item de suma importância para ambos os grupos pois é com ele que eles conseguem fazer fogo.
De inicio e com papéis bem definidos a convivência entre os garotos dos diversos grupos é pacífica, eles desempenham normalmente suas atividades e ainda se divertem com a súbita liberdade propiciada pela situação incomum em que se encontram. Contudo, a desobediência do que é definido, a falta de compromisso com os objetivos em comum, além do surgimento de rumores de que a ilha é habitada por uma criatura estranha que perturba noite após noite os sonhos dos mais jovens acirra ainda mais as divergências de opiniões dos líderes que passam a brigar constantemente, até que Jack e seu grupo decidem se separar de vez do grupo de Ralph e ir viver do outro lado da ilha. O ambiente resultante das disputas de poder entre eles é de guerra: opressão, perseguição e morte pouco a pouco tomam conta do cotidiano da ilha.
A escolha de Golding por um narrador onisciente em terceira pessoa contribui para nos mantermos de certo modo afastados dos acontecimento, nos dando uma visão por cima, mas ainda assim, em alguns momentos isso me soou dum certo sadismo, algo como acompanhar as cobaias de um experimento social destruindo-se aos poucos, mas é inegável o quão curioso e perplexo eu fiquei com a trama tentando entender como tudo pôde se despedaçar tão facilmente. O vasto conjunto de símbolos alegóricos no romance rende material para as mais diversas interpretações acerca do que cada elemento representaria e de como o enredo relaciona uns com os outros. A concha, os óculos, os porcos, as moscas, Ralph, Jack, absolutamente tudo nele pode e deve ser lido de mais de uma forma.
Golding tece uma crítica mordaz ao modelo do bom selvagem de Rousseau segundo o qual o ser humano nasce bom, mas é aos poucos corrompido pela vida em sociedade durante o processo civilizatório. Em Senhor das Moscas vemos a corrupção partir do âmago do ser humano, principalmente através da disputa de poder pelas construções sociais que ele mesmo criou para organizar e manter a estabilidade da vida em sociedade. O ser humano tensiona e rompe com os acordos sociais porque é da natureza da sua índole. A trama choca ainda mais por vermos que são crianças abrindo mão de sua inocência e sem se darem conta, talvez indo longe demais em sua ações e decisões.
A experiência de lê-lo se mostrou muito gratificante, é impossível não se ver envolvido com a atmosfera de tensão que aos poucos vai se construindo em torno do trio de personagens principais, mas também com a percepção dos papéis que cada um ali representa através da alegoria e das metáforas contidas por trás de suas ações. É um livro sem igual, que intriga e perturba, mas passa longe de impor uma moral, é daqueles que dão material para pensar e muito principalmente sobre o quão frágil são as estruturas sociais que mantém o nosso mundo civilizado funcionando ainda que de maneira imperfeita. Em Senhor das Moscas o que vemos é a ordem sendo suprimida pelo caos, a civilidade sendo superada pela barbárie, a lei e a razão sendo subjugadas pelas força bruta e pela selvageria. É assustador pensar que tudo pode ruir num instante e com tanta facilidade.

Ilustraverso: Clari Cabral

Todo mundo ama uma boa capa, um mapa bem feito e ilustrações apaixonantes, sejam elas em livros, grafic novels, guias ilustrados, para usar de papel de parede ou pelo simples prazer de admirar. Porém nem todo mundo costuma dar a valor a pessoa por trás da arte, mas por sorte aqui é diferente. Quem sabe você não descobre aqui a pessoa que vai ser responsável por aquele presente diferenciado ou para concluir/iniciar aquele projeto que está engavetado: uma HQ ou a capa e ilustrações de um bom livro.
Na sessão Ilustraverso o artista e sua arte tem vez e reconhecimento. A artista da vez é uma ilustradora cujo o trabalho conheci durante a CCXP e seu traço é uma fofura só: conheçam o trabalho de Clarissa Cabral!
Clarissa Cabral é uma ilustradora de 23 anos, com base em Recife, Pernambuco. Formada em Design, Clari ama livros infantis, dinossauros, aliens, coisas fofas e mistérios da humanidade.
Você pode conferir uma amostra de sua arte aí embaixo e as galerias da artista no Tumblr e/ou seguí-la no Twitter, Facebook, e/ou no Instagram. Aos interessados em um contato profissional para alguma encomenda, pode entrar em contato através da sua rede de preferência.

Old Dragon Manual Básico: Edição Aprimorada


Volte aos tempos da fantasia clássica dos role-playing games em um mundo de espadas, magias, monstros e perigosas aventuras! O Old Dragon: livro de regras básicas contém tudo que os jogadores precisam para construir seus heróis e para o mestre criar suas fantásticas aventuras, com regras simples e rápidas que dão o tom da verdadeira diversão. Crie seu aventureiro, escolha seu equipamento e prepare-se para ganhar riquezas, fama e glória!
Agora totalmente a cores e com capa dura!


Old Dragon Manual Básico: Edição Aprimorada
Autores: Antonio Sá Neto, Dan Ramos e Fabiano Neme
Editora: Redbox
Número de páginas: 196

Old Dragon, um dos mais bem sucedidos jogos de RPG nacionais dos últimos anos, chega a sua 7ª Impressão com toda pompa e luxo que uma publicação com a marca de mais de 12 mil exemplares vendidos merece. Se você conhece o sistema, siga com a leitura e contribua com a sua experiência com o sistema e a análise aqui feita desta edição. Caso você não conheça Old Dragon ainda, não se culpe: siga com a leitura desta postagem pois pode ser que encontre algo que nem mesmo sabia que estava procurando!
Há um tempo atrás, durante um de nossos episódios sobre RPG do Multiverso X comentei com os participantes sobre uma situação que presenciei: um casal dentro de uma livraria, após ter assistido a série Stranger Things, buscava por aquele jogo que as crianças estavam jogando. É claro que eles não encontrariam ali uma edição de mais de 30 anos do clássico Dungeons & Dragons. No mesmo instante em minha cabeça pensei: "Old Dragon é o que temos de mais próximo a experiência que eles estão procurando". 

Old Dragon é um sistema de RPG em estilo Old School que se propõe a manter as raízes na simplicidade e maior liberdade na resolução de problemas, focando-se menos em regras ou rolamentos de dados, em prol da construção de uma história mais emocionantes e ativa para os participantes. Isso faz de Old Dragon um sistema perfeito para antigos jogadores de RPG saudosos com os tempos áureos do D&D, mas também um sistema perfeito para ser apresentado para aqueles que nunca tiveram contato com RPG, ou que por ventura se afastaram após uma primeira experiência travada por tecnicidades desnecessárias. 
Principalmente se estamos falando da Edição Aprimorada!
A nova edição do sistema, além de belíssima, é extremamente amistosa com novos jogadores, cada elemento é apresentado de maneira detalhada no avançar das páginas e capítulos. Essa divisão e organização facilitam bastante a absorção de conteúdo e a diagramação tem papel fundamental aqui! Além disto, dezenas de textos auxiliares estão lá para exemplificar através de situações práticas o funcionamento de tudo o que foi apresentado. E não é só nisto que o sistema busca ser inclusivo. 
Desde a introdução, Old Dragon busca mostrar o potencial que o RPG tem e o valor da variedade e liberdade que o(a) jogador(a) possui para criar personagens interessantes seja de qual raça, cor, credo, gênero e sexualidade ele definir. Se no mundo real possuímos variedade desde tempos imemoriais, por que na fantasia precisamos nos restringir? Use a sua imaginação e enriqueça a sua história!
O Manual Básico de Old Dragon é completo e traz todos os elementos fundamentais para que você saia jogando após a leitura. Estão aqui as raças e classes icônicas da fantasia, com seus anões, elfos, halflings, magos, ladrões, guerreiros e clérigos, diversas magias e itens mágicos, e também um leque de criaturas variado para dar aos jogadores uma boa gama de desafios. Caso queira deixá-lo ainda mais diverso recomendamos que busque o Old Dragon: Guia de Raças e Old Dragon Bestiário, mas lembre-se que o Manual Básico traz tudo o que você precisa para começar a jogar, basta um pouco de imaginação, alguns dados especiais e um grupo de amigos disposto a viver aventuras.  
Quanto a parte gráfica do livro não há muito o que fazer senão elogiar. O manual totalmente colorido, com ilustrações excelentes e funcionais - todos sabemos que monstros da fantasia podem ser bem difíceis de se imaginar e uma referência é sempre bem vinda - e diagramação perfeita, não fica devendo em nada para trabalhos estrangeiros do tipo luxo. Isso tudo em formato que é uma das maiores vantagens da obra. O padrão A5 do Old Dragon faz dele um dos sistemas mais portáteis no mercado, cabendo em qualquer bolsa sem acrescentar um peso enorme, mesmo quando acompanhado de algum acessório. Um pequeno notável, alguns diriam!
Caso você já possua alguma das versões anteriores, pode ficar tranquilo: o material é totalmente compatível com o que já foi lançado, como bem disse a Redbox. As principais alterações já foram bem descritas na Guilda dos Mestes, na Tábula Quadrada e na Rede RPG, e por isso não me estenderei aqui. A impressão que tive foi que as alterações apenas apararam algumas arestas e simplificaram ainda mais o jogo para antigos e novos jogadores. Não há nada que te obrigue a adquirir o novo material, mas olhar com carinho a possibilidade de ter na estante essa versão com acabamento luxo não mata ninguém.
Uma coisa excelente de Old Dragon é que você não precisa acreditar em mim se não quiser: a Redbox Editora disponibiliza a versão PDF do Old Dragon Manual Básico: Edição Aprimorada gratuitamente para download, basta se inscrever na newsletter. Assim você pode conferir tudo ANTES de decidir se estou certo ou errado, e se vai comprar ou não o Manual. Até lá você pode se divertir bastante!
Por fim, mas não menos importante, Old Dragon possui uma grande comunidade ativa onde você pode sanar suas dúvidas, compartilhar suas histórias, colaborar com materiais para uso em aventuras com outros jogadores e com os próprios criadores e colaboradores do jogo. Tive o prazer de conhecer o pessoal da Redbox durante a CCXP e todos são super solícitos, atenciosos e cheirosos (o Pop que mandou eu dizer), e posso afirmar Old Dragon é um baita sistema, e no que depender deles, vem muito mais material por aí!

Como Falar com Garotas em Festas

Enn é um garoto de quinze anos que nunca se deu bem com as garotas, enquanto seu amigo Vic tem todas a seus pés. Na Londres dos anos 1970, auge do punk rock, os dois estão prestes a viver a aventura mais espetacular das suas vidas. Ao serem convidados para uma festa, conhecem as belas Stella, Triolet e Wain e descobrem mais segredos do que jamais poderiam supor. Do premiado Neil Gaiman, autor de Deuses americanos e Sandman, e adaptado e ilustrado de maneira extraordinária pelos irmãos Fábio Moon e Gabriel Bá, Como Falar com Garotas em Festas é uma graphic novel eletrizante, uma jornada sobre as descobertas do amor, das diferenças e dos mistérios que cercam o amadurecimento.
Título: Como Falar com Garotas em Festas
Título Original: How To Talk With Girls At Parties
Autores: Neil Gaiman, Fábio Moon e Gabriel Bá
Tradução: Fábio Moon e Gabriel Bá
Ilustrações: Fábio Moon e Gabriel Bá
Editora: Companhia das Letras / Quadrinhos na Cia
Ano: 2017 / Páginas: 80

Um garoto tímido e seu amigo extrovertido, Enn e Vic, em busca de diversão numa festa cheia de belas garotas. Essa é a premissa básica de Como Falar com Garotas em Festas, história contada contada pelo próprio Enn que relembra como foi ir na festa mais estranha da sua vida, bem como o começo tímido da sua vida afetiva, quando ainda era um adolescente de quinze anos.
Meu primeiro contato com esta história foi através do conto, presente no primeiro volume da edição brasileira da coletânea Coisas Frágeis publicada pela Editora Conrad. Lembro-me de na época ter ficado fascinado com os rumos tomados por uma história aparentemente simples e pela sua mistura de real e fantástico dando cor e vivacidade à experiência narrada pelo seu protagonista.
O conto foi escrito por Gaiman após duas tentativas fracassadas de compor uma história que era para ser sobre um passeio turístico inusitado. Após perder o prazo de entrega do mesmo para uma antologia para a qual fora convidado por ter se enrolado com os elementos desconexos na trama que não conseguia fechar de jeito nenhum, Gaiman ficou mordido e acabou transformando a história em outra coisa completamente diferente. Na época do lançamento de O Oceano no Fim do Caminho, o conto chegou a ser disponibilizado gratuitamente em ebook como brinde por um curto período de tempo pela Intrínseca. Ele também deu origem a uma adaptação em longa metragem com estreia prevista para 2018, dirigida por John Cameron Mitchell, estrelando Elle Fanning, Alex Sharp, Nicole Kidman, Ruth Wilson, e Matt Lucas.
Mas falemos especificamente da adaptação para quadrinhos. Os irmãos Bá e Moon, quadrinistas brasileiros aclamados internacionalmente pela excelente graphic novel Daytripper, ainda estavam envoltos na produção da adaptação de Dois Irmãos de Milton Hatoun quando receberam o convite de Diana Schutz, editora da Dark Horse, para adaptar este conto de Gaiman. Eles aceitaram prontamente se puseram a trabalhar no material, concluindo o trabalho cerca de dois anos depois.
Em entrevistas, Bá e Moon contam que além da oportunidade irrecusável de trabalhar num material original de um autor cujo trabalho muito admiram, pesou também nesta decisão a identificação de ambos com a história. Fora os elementos fantásticos, eles contam que não eram o tipo de garotos que se davam bem nas festas, e que tal como Enn, eram acanhados e atrapalhados e estavam longe de ser populares entre elas. Contar essa história através dos quadrinhos, além de lhes permitir contar uma história sensível como as que gostam de trabalhar, seria também uma oportunidade de falar deles mesmos ali, tanto que o design final do protagonista se parece um pouco com os irmãos ainda que Gaiman também tenha enviado algumas fotos suas de adolescente para servirem de inspiração.
Na HQ a história mantém-se bem fiel ao conto, mesclando elementos de fantasia e ficção científica em sua trama. Enn e Vic a princípio não sabem onde é a festa em que estão indo e acabam indo parar por engano numa outra muito diferente da que esperavam. Enquanto Vic é bonito, charmoso e tem as garotas aos seus pés, Enn mal sabe como se aproximar delas pela timidez e ao contar ao amigo sobre seus temores recebe o conselho simples de que precisa apenas conversar com elas, afinal elas não são de outro planeta. Após chegarem a esta festa e se enturmar com algumas das garotas mais belas que já viram na vida, eles vão descobrir que talvez estivessem um pouco equivocados quanto a isto.
Meus trechos favoritos e os que considero os mais impressionantes são os diálogos das garotas, fico me perguntando como eu reagiria se estivesse na pele de Enn ouvindo o que elas têm a dizer sobre si mesmas e o lugar de onde vieram. Eles são e beiram a poesia, nos causam estranhamento como acordes musicais vibrando em frequências incomuns, nos encantam como versos e estrofes e nos levam a uma viagem cósmica surreal para além do que a imaginação é capaz de criar. A dificuldade de Enn para se aproximar das garotas e falar com elas é posta a prova dum modo que dizer que elas não são deste planeta não seria nenhum exagero ainda que eu desgoste ligeiramente deste tipo de afirmação. É possível notar também que algumas delas estão tão perdidas ali quanto Enn ainda que de uma maneira diferente, não sabendo como lidar com seus corpos, suas emoções e todo aquele ambiente. Para elas, “falar” com garotos também é uma novidade.
Estas primeiras tentativas dum adolescente buscando se relacionar com o outro são mostradas de forma positiva, convenhamos, nunca é tão fácil estabelecer contato, é preciso se aproximar, ter afinidades, se deixar envolver pelo outro e envolvê-lo mutuamente até, na melhor das hipóteses, se entregar definitivamente. Para Enn isso tudo se complica não apenas pela falta de experiência e timidez, não havia como ele saber com quem ou o quê estava lidando, Wain, Triolet e as demais garotas da festa não são garotas comuns, e ele em sua inocência e ingenuidade cegado pelos hormônios em ebulição não percebe isso até quase ser tarde demais...
A arte dos irmãos brasileiros tem um quê de cartunesco com seus personagens estilizados em formas esguias e belas, com forte predominância de uma paleta de cores mais quentes em aquarela. A quadrinização é simples, proporcionando uma experiência de leitura suave e sem alterações bruscas. Os cenários são simples e algumas vezes meramente sugeridos nos quadros dando maior destaque para as expressões faciais dos personagens nas cenas.
Ainda destaco a música e a poesia como elementos marcantes na narrativa, ambas embalam a festa e os diálogos dos personagens criando uma atmosfera que por si só já nos conta uma história a parte. Vale ouvir algumas das bandas citadas enquanto lê para entrar no clima da Londres dos anos 1970 vivendo o auge da popularidade do punk rock sobretudo entre os jovens e comparar com as bandas e músicas que faziam sucesso na mesma época entre os adultos. Sex Pistols, The Clash, Bowie, Kraftwerk e até Paul Young são citados diretamente por Enn ao descrever o ambiente em que acabou indo parar.
A edição nacional da graphic novel foi publicada pela Companhia das Letras através de seu selo de quadrinhos, Quadrinhos na Cia em agosto de 2017 com acabamento em brochura simples, capa em cartão e miolo em papel couche brilhante. Como extras a edição traz um Caderno de Rascunhos com esboços e ilustrações variadas do processo de produção: do esboço a lápis à colorização em aquarela.
Como Falar com Garotas em Festas vale muito a leitura mesmo para quem já a conhece através do conto. A adaptação para quadrinhos não peca em momento algum nem pela ausência e nem pelo excesso em relação ao original e funciona maravilhosamente bem também de forma independente. Bá e Moon conseguiram transpor para ela através da sua arte a mesma fluidez e encanto, o mesmo ritmo e cadência de palavras, além de todos os elementos visuais e etéreos tão charmosos e marcantes do conto surreal de Gaiman. De leitura fácil e rápida, ela talvez deixe passar ao leitor mais desatento algumas camadas mais profundas de significados e subjetividade, vale ler e reler, vale falar mais de uma vez com as garotas da festa em busca das metáforas e da poesia. Como Falar com Garotas em Festas é um pouco sobre encontrar-se e perder-se no outro, é um pouco sobre abrir-se ao desconhecido e se deixar modificar pela experiência, é sobre permitir-se viver, experimentar e ir além, é sobre tudo o que significa amadurecer e amar e para tanto, basta falar com elas. Recomendo!

Multiverso X.:28 - Bagulhos Sinistros 2








Reproduzir Em Uma Nova Aba - Faça o DownloadArquivo Zip
 
Após vagar por lugares escuros, o Capitão Ace Barros, reencontra a imediata Hall-e, o navegador Airechu, o piloto da Interlúdio Julio Barcellos, recebem o Sr. Basso do Covil Geek para falar sobre alguns bagulhos sinistros: a segunda temporada de Stranger Things.
Ouça e descubra nossa relação com a primeira temporada da série e seus personagens; entenda o que agradou e desagradou na segunda temporada e os motivos que levaram a isso; qual personagem favorito de cada um e qual mais odiado. Tudo isso e muito mais ao apertar de um botão.
Acompanhe-nos, estimado Explorador de Universos! 

DURAÇÃO: 1 Horas 38 Minutos 42 Segundos

CITADOS NESTE EPISÓDIO:

Stranger Things 1 & 2 - IMDB - FILMOW - NETFLIX
Beyond Stranger Things - NETFLIX
Stranger Things: The Game - ANDROID - iOS

ACOMPANHE NOSSOS CONVIDADOS:

BASSO
Covil Geek (Site) - Twitter: @covilgeek

A TRIPULAÇÃO NAS REDES:

Twitter: @MultiversoX @CapAceBarros - @_Airechu - @JulioBarcellos - @id_diogo
Instagram: @multiversox - @_airechu @juliobarcellos @id_diogo
Facebook: Multiverso X

QUER O FEED PARA ADICIONAR NO SEU AGREGADOR FAVORITO?

Assine o nosso feed: feeds.feedburner.com/multiversox/podcast

SUGESTÕES, CRÍTICAS E DÚVIDAS:

Envie e-mails para: contato@multiversox.com.br


Liga da Justiça



Impulsionado pela restauração de sua fé na humanidade e inspirado pelo ato altruísta do Superman, Bruce Wayne convoca sua nova aliada Diana Prince para o combate contra um inimigo ainda maior, recém-despertado. Juntos, Batman e Mulher-Maravilha buscam e recrutam com agilidade um time de meta-humanos, mas mesmo com a formação da liga de heróis sem precedentes, poderá ser tarde demais para salvar o planeta de um catastrófico ataque.


Título: Liga da Justiça
Título Original: Justice League
Lançamento/Duração: 2017 - 2h
Gênero: Aventura/Ação/Sci-Fi
Direção: Zack Snyder
Roteiro: 
 Chris Terio e David S. Goyer
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavil, Gal Gadot, Amy Adams, Diane Lane, Jeremy Irons, Ezra Miller, Jason Momoa e Ray Fisher


Finalmente chega aos cinemas o aguardado filme da Liga da Justiça, trazendo o mais icônico grupo de super-heróis dos quadrinhos - me desculpem Vingadores - finalmente reunido em tela. O sucesso de Mulher Maravilha e, para alguns, a presença de Joss Whedon, deram um novo vigor nas expectativas para o longa. A pergunta que retumbava entre os temerosos e os esperançosos era: será que o filme da Liga irá acertar e trazer um saldo positivo para o universo DC nos cinemas?
Se você precisa de uma resposta rápida, pouparei seu tempo. Liga da Justiça, mesmo que ainda com tropeços, repara as principais críticas a DC, é divertido, funciona e vai agradar maior parte do público. Pode comprar seu ingresso e assistir ao filme sem esse peso no coração.
Após os eventos de Batman vs Superman: A Origem da Justiça, que resultam com a morte do escoteiro azulado interpretado por Henry Cavil, a terra se vê em um momento de descrença e temor. A esperança parece ter deixado o mundo junto com o portador simbolo da casa de El e último filho de Kripton. 
Em meio a esse clima medo e angústia, surge um inimigo que parece se aproveitar dele e da falta de defensores na terra capaz de lidar com seus poderes além da imaginação. Seu plano é reunir as Caixas Maternas deixadas para trás em sua última tentativa de invasão para destruir o planeta. Cabe ao Batman, inspirado pelo ideal do Homem de Aço, reunir um grupo de meta-humanos para, quem sabe, evitar destruição da terra. E talvez, até mesmo eles precisem de ajuda de alguém mais forte, para deter o Lobo das Estepes.
Liga da Justiça nos é entregue como um bom filme de ação, e seu principal objetivo é atingido ao entreter o público com seus combates, sequências eletrizantes - embora boa parte já mostrada nos trailer - e muito bom humor. Contudo o filme tinha potencial para ser mais, e principalmente no último terço do filme. Apesar disso, não se engane, é muito mais provável que saia do filme querendo mais daqueles personagens - uns mais do que outros - do que simplesmente reclamando.
O roteiro do filme é bem simples e linear - o que não é novidade entre os filmes de super-heróis, seja Marvel ou DC - mas se mantém interessante durante todo o desenvolvimento. É claro, existem deslises e decisões questionáveis, mas esses acabam sobrepostos pelos acertos e pela diversão proporcionada pela superprodução. O vilão, o ritmo da etapa final e CGI talvez sejam os pontos que mais causem incomodo, mas é bom lembrar esses problemas existem também na concorrência tida como referência.  
O encontro do trabalho de Zack Snyder e Joss Whedon encontrou um ponto de equilíbrio (embora a balança penda mais pro Whedon). O filme abandona - mas não totalmente - o sombrio e tenta trazer leveza pra todos os personagens, inclusive pro Batman. Isso funciona melhor pra os personagens que entram nesse universo agora, mas pra quem mostrou outra coisa antes da aquela travada na descida (principalmente o indeciso Batman, ora sério ora muito jocoso). Porém no fim funciona e você anseia por mais dos personagens.
Por falar nos personagens, é possível dizer de forma rápida que o entrosamento entre eles, mesmo com a construção rápida, parece natural e é legal de ver em tela. A introdução dos novos personagens é feita de maneira fluida, sem perder tempo com arcos próprios, embora apresente ganchos e elementos para cada um deles. Ezra Miller, Jason Momoa e Ray Fisher, estão muito a vontade nos papeis de Flash, Aquaman e Ciborgue, conquistam o público facilmente e marcam o seu espaço, embora o Atlante seja o menos aproveitado entre eles. O Batman de Ben Affleck segue um herói duro, desgastado, mas agora tocado pelo simbolo e exemplo do Superman, também da princesa Amazona. A Mulher Maravilha da Gal Gadot é o elo forte da equipe e mais uma vez ganha um destaque especial merecido. O Superman de Henry Cavil segue sua jornada para ser o simbolo que é nos quadrinhos e se afastar da imagem de insensibilidade deixada por Men of Steel.
Apesar do já comentado CGI por vezes incomodo, a plástica visual do filme é bem construída  e bonita de se ver. A trilha de Danny Elfman é assertiva e totalmente completar a obra, indo além do uso de músicas famosas para compor um grande clipe de ação e fixando a marca sonora característica de seus personagens.
A soma dos pontos a meu ver é um resultado positivo e mostra que o Universo DC nos cinemas ainda tem muita coisa boa para mostrar. Como fã digo fiquei animado para ver como será o universo que vem por aí depois desse novo sopro de esperança. Vale a pena conferir e garantir algumas horas de entretenimento!


Contos do Cão Negro



Série: Contos do Cão Negro
Títulos: Vol. 1 - O Coração do Cão Negro e Vol. 2 - A Canção do Cão Negro.
Roteiro: César Alcázar
Arte: Fred Rubim
Editora: AVEC Editora
Número de páginas: 63

O Coração do Cão Negro: SKOOB - COMPARE E COMPRE - LOJA RECOMENDADA
A Canção do Cão Negro: SKOOB - COMPARE E COMPRE - LOJA RECOMENDADA

O que aconteceria se uma obra trouxesse o clima de aventura de Conan para o mundo que conhecemos com toques de ficção histórica? E se essa obra trouxesse não apenas a ação, mas o clima sobrenatural presente em algumas aventuras do cimério? E se por fim a arte da obra o remetesse a Hellboy, outro expoente dessa mistura? Você não precisa se esforçar para imaginar nada disso, pois pode encontrar isso e mais um pouco na série gráfica antológica Contos do Cão Negro, de César Alcázar e Fred Rubim que conta com dois volumes até o momento lançados pela Editora AVEC: O Coração do Cão Negro e A Canção do Cão Negro.
É impossível fugir do comparativo aos trabalhos de Robert E. Howard, H.P. Lovecraft e Mike Mignola. Digo isso não para apontar referências e semelhanças notáveis na obra, mas para garantir a paridade dos trabalhos. O clima pulp com direito a espada, mistério sobrenatural, pesquisa histórica e mitológica, é muito bem executado em uma narrativa gráfica onde cada detalhe em cada quadro complementa a história.
A  série conta a história de Anrath, um mercenário irlandês conhecido como Cão Negro de Clontarf, em suas várias aventuras na Irlanda do século XI, durante as várias tensões entre os nórdicos e gaélicos. Anrath, o mercenário conhecido como o Cão Negro de Clontarf, é um homem atormentado, nascido gaélico e criado entre os vikings. O destino fez com que ele se tornasse um renegado, um guerreiro condenado a vagar entre duas culturas como um pária sem pertencer a nenhuma.
No primeiro volume, O Coração do Cão Negro, o mercenário gaélico é contratado por um misterioso inglês para encontrar um antigo medalhão chamado Coração de Tadg, supostamente uma chave para tesouros e poderes ligados a deuses antigos. Com a missão cumprida, Anrath é envolvido contra sua vontade em uma trama de vingança e traição que o levará direto para as mãos de Ild Vuur, um líder viking ligado a seu passado, e o fará confrontar horrores além do espaço e do tempo.
A obra de clima sombrio que flerta com o horror, carregada na narrativa visual e nos diálogos curtos e diretos, nos introduz ao universo habitado pelo Cão Negro, suas regras e características; embora com boa base histórica e focado no herói humano, há mais coisas entre o céu e a terra do que julgam os mortais. Somos entregues a um protagonista formado e a uma história em movimento, sem interrupções na continuidade da obra para ambientar o leitor de forma clichê e por vezes preguiçosa. Seu passado nos é entregue em subtexto e nos enche de curiosidade com as incessantes lacunas que abrem espaço para novas possíveis narrativas. E é exatamente o que desejará o leitor após a conclusão da trama, que embora não seja necessariamente original, é envolvente e muito bem executada.
A Canção do Cão Negro, ambientada um ano após a batalha os acontecimentos do primeiro volume, nos traz Anrath agora como comandante de seu próprio navio, mas não por isso com uma vida confortável. Após uma missão na Islândia, o gaélico irá se deparar com um novo confronto com saqueadores vikings, reflexo direto de suas ações e sua má-fama. Contudo, em meio a uma sangrenta batalha, o Cão Negro irá se deparar com uma criatura mitológica sedutora e mortal, que lhe tará a promessa de aliviar o peso de uma vida, mas com um caro custo.
Enquanto o volume anterior nos apresenta o protagonista e seu universo de forma direta, o segundo pavimenta questões sobre passado, presente e futuro do personagem. Em uma trama de forte teor psicológico, embora a ação não deixe a dever em nada para o anterior, Alcazar expande a narrativa para somar mais peso ao personagem, principalmente através das relações. Isso sem abandonar a leitura subtextual, embora a obra mais direta que a anterior. Os principais atrativos da obra se mantém, e mais uma vez a narrativa envolvente te conduz ao desejo de continuidade.
O formato de conto gráfico favorece a criação de histórias tanto sobre o passado quanto o futuro do personagem sem necessidade de um continuísmo barato ou a obrigação de sequência de leitura. É claro que há um ganho em experiência ao consumir na ordem correta, mas uma das principais características do roteiro criado por Alcazar é ser fechado e contido em si apesar das lacunas propositais sobre o personagem. Aliás, o Cão Negro  nasceu em contos escritos por César Alcázar e publicados em diversas antologias tanto em território nacional quanto no exterior, além de um romance,  Fúria do Cão Negro, todos eles bastante elogiados pela crítica. 
Com um traço marcado, crú e simples, o trabalho de Fred Rubim para os Contos do Cão Negro é excepcional e traz aos contos uma boa dosagem do clima pulp e do quadrinho europeu. O resultado são suas graphic novels de altíssima qualidade, tanto no roteiro e arte, quanto no trabalho gráfico e editorial executado pela AVEC Editora.
A série Contos do Cão Negro é um prato cheio para aqueles que gostam aventuras de espada e feitiçaria dinâmicas e envolventes, com boas batalhas, e mistérios antigos. Mesmo que você não goste de HQs, essa obra tem tudo para te agradar.