BEM-VINDO VIAJANTE! O QUE BUSCA NO MULTIVERSO?

Ilustraverso: Stepan Alekseev

Todo mundo ama uma boa capa, um mapa bem feito e ilustrações apaixonantes, sejam elas em livros, grafic novels, guias ilustrados, para usar de papel de parede ou pelo simples prazer de admirar. Porém nem todo mundo costuma dar a valor a pessoa por trás da arte, mas por sorte aqui é diferente. Quem sabe você não descobre aqui a pessoa que vai ser responsável por aquele presente diferenciado ou para concluir/iniciar aquele projeto que está engavetado: uma HQ ou a capa e ilustrações de um bom livro.
Na sessão Ilustraverso o artista e sua arte tem vez e reconhecimento. O artista da vez é um ilustradora, um tanto quanto oculto, cujo trabalho se destaca pelo encanta pela fantasia sombria. Conheçam e apreciem o trabalho de Stepan Alekseev!
Stepan Alekseev, é um artista digital baseado em Yakutsk, na Rússia. Tive dificuldade em encontrar mais informações básicas sobre o artista.
Especializado em design de personagens e artes conceituais, as ilustrações do artista misturam climas sombrios, fantasia e muita violência. Apesar da dificuldade em encontrar informações concretas, tudo indica que o artista colaborou com a criação de Concepts para empresas dos universos dos jogos e da literatura. Stepan é mais um artista cujo trabalho parece tão escuro e vívido, você se convence instantaneamente da existência seres do submundo.Você pode conferir uma amostra da arte aí embaixo, a galerias da artista no ArtStation, e/ou seguí-lo no Facebook. Aos interessados em um contato profissional para alguma encomenda, isso pode ser feito pelo contato através do e-mail: gosshmngthlinhd@gmail.com



Mitologia Nórdica

Neil Gaiman tem sido inspirado pela mitologia antiga na criação dos reinos fantásticos de sua ficção. Agora ele volta sua atenção para a fonte, apresentando uma versão bravura das grandes histórias do norte.
Na mitologia nórdica, Gaiman permanece fiel aos mitos ao prever o maior panteão dos deuses nórdicos: Odin, o mais alto dos altos, sábios, ousados ​​e astutos; Thor, filho de Odin, incrivelmente forte, mas não o mais sábio dos deuses; E Loki-filho de um irmão de sangue gigante para Odin e um malandro e insuperável manipulador.
Gaiman modela essas histórias primitivas em um arco romântico que começa com a gênese dos nove mundos lendários e mergulha nas façanhas de deidades, anões e gigantes. Uma vez, quando o martelo de Thor é roubado, Thor deve disfarçar-se como uma mulher - difícil com sua barba e enorme apetite - para roubá-lo de volta. Mais pungente é o conto em que o sangue de Kvasir - o mais sagaz dos deuses - se transforma em um hidromel que infunde bebedores com poesia. O trabalho culmina em Ragnarok, o crepúsculo dos deuses e o renascimento de um novo tempo e de pessoas.
Através da prosa hábil e espirituosa de Gaiman surgem esses deuses com suas naturezas ferozmente competitivas, sua susceptibilidade a ser enganados e enganar os outros e sua tendência a deixar a paixão inflamar suas ações, fazendo com que esses mitos há muito tempo respirem uma vida pungente novamente.
Título: Mitologia Nórdica
Título Original: Norse Mythology
Editora: Intrínseca
Autor: Neil Gaiman
Tradução: Edmundo Barreiros
Ano: 2017 / Páginas: 288


É notável a influência que os mitos nórdicos exercem nas histórias de Neil Gaiman, seja em aparições rápidas e pontuais, como em Sandman quando Odin, Thor e Loki surgem pessoalmente para requisitar a Chave do Inferno de Lúcifer em posse de Sonho ou como personagens cruciais para o desenvolvimento de suas tramas como o Sr. Wednesday em Deuses Americanos e a família das Hempstock em O Oceano no Fim do Caminho e até mesmo como fonte de inspiração direta em recriações fascinantes como no infanto juvenil Odd e os Gigantes de Gelo, lá estão presentes personagens, itens ou conceitos do ideário mitológico viking.
Assim como muitos de nós, Gaiman primeiramente teve contato com estas histórias através dos quadrinhos de Stan Lee e Jack Kirby para a Marvel e passou a se interessar cada vez mais por elas. Em Mitologia Nórdica, seu mais recente livro, ele busca recontar algumas destas histórias que tanto o fascinaram na infância e o influenciaram ao longo de toda a sua carreira,como roteirista e escritor, só que desta vez com o seu estilo e voz característicos, pois segundo ele, grande parte da diversão e do fascínio oriundo dos mitos está justamente em recontá-los.
Narradas como pequenos contos, as quinze histórias que compõem Mitologia Nórdica nos transportam aos nove reinos da Yggdrasil e nos conduzem através da ponte Bifrost aos desertos gelados de Asgard onde somos apresentados aos deuses Aesir e Vanir que compõem o panteão nórdico e também aos temíveis Gigantes de Gelo e Fogo, seus inimigos mortais. Destaca-se então o trio mais famoso de personagens: Loki com suas artimanhas sem fim e sua personalidade inconstante, Thor, o deus do trovão puro músculos, força e bravura e Odin, o Pai de Todos e o sábio Rei dos Deuses.
Ficaram entre as minhas histórias favoritas nesta leitura a dos contos “O Mestre Construtor” na qual em troca do sol, da lua e da mão da bela deusa Freya um misterioso construtor se habilita a construir uma muralha em torno da fortaleza de Odin, os deuses ficam receosos com a proposta, mas são convencidos por Loki a aceitá-la; “O Incomum Casamento de Freya” no qual para reaver seu martelo Mjolnir que havia sido roubado, Thor se disfarça de Freya e tem a mão prometida em casamento a um gigante; “O Hidromel da Poesia” onde é contado de onde vêm a inspiração dos poetas para as boas histórias, poesias e canções e igualmente também a origem das composições ruins e de gosto duvidoso; e “A Morte de Balder” onde nos é mostrada a faceta mais cruel e mesquinha de Loki quando por pura inveja ele trama o assassinato do belo e adorado deus Balder pelo seu próprio irmão Hod, fatos que desencadeariam futuramente o próprio Ragnarok.
É fascinante notar o quão parecidos conosco são os deuses nórdicos, eles são falíveis, dúbios, não há uma linha clara entre o bem e o mal e eles sofrem as consequências de suas escolhas e ações. O tom das histórias vai do humor leve ao drama mais trágico e todas são divertidas e instigantes de ler e para além dos personagens mais populares somos apresentados a uma verdadeira miríade de deuses, criaturas, itens mágicos e lugares fantásticos em suas páginas, tudo de forma vibrante e colorida!
O livro ainda possui uma Apresentação, uma descrição dos personagens principais e um Glossário, organizado pelo autor. As histórias seguem uma certa ordem cronológica, partindo do início do mundo com um mito de criação até o seu final em que são contados os eventos catastróficos do Ragnarok, mas elas podem ser lidas de forma independente e algumas vezes não mantém uma continuidade, apresentando certa incongruência, uma característica das narrativas mitológicas que por serem provenientes duma tradição oral antiga, cujas fontes há muito se perderam, nos chegam quase sempre de forma divergente e fragmentada. Aqui, Gaiman procurou se manter fiel às versões dessas histórias presentes no Edda em Prosa de Snorri Sturluson e na Edda Poética, dois compêndios de contos e poesias independentes datadas do século XIII e consideradas as mais antigas e importantes fontes para estudo da mitologia nórdica.
A edição impressa da Intrínseca com tradução de Edmundo Barreiros possui um belo projeto gráfico em capa dura com efeito emborrachado e um ótimo trabalho de tipografia e layout no miolo que proporcionam uma experiência tátil e de leitura confortáveis.
O texto de Neil Gaiman é fluido, direto e prazeroso de ler. Ele faz uma ótima construção de cenários e personalidades conforme exigido pelas histórias, há variações muito interessantes, sobretudo em relação a Loki, e o autor não peca em beleza usando uma dose certa de figuras de linguagem. Fica impossível não pensar em como seria uma recriação completa desta mitologia pela pena de Gaiman à exemplo do que ele fez em Sandman, mas aqui o foco é mesmo o de recontar com certa fidelidade versões dos mitos originais e embora o faça de forma muito satisfatória, o autor não vai além disto.
Mitologia Nórdica é uma ótima porta de entrada e vale como uma introdução acessível para conhecer e até se aprofundar um pouco mais nos mitos nórdicos podendo servir como fonte de consulta e referência. Para quem já é fã do autor ou já é um pouco familiarizado pelos mitos nórdicos de fontes indiretas, este livro faz uma apresentação concisa das histórias cuja relevância ainda permanecem vivas até hoje, propiciando uma redescoberta por completo de todo um conjunto de referências espalhados pela literatura, quadrinhos, games e cinema. Mas mais do que um livro introdutório ou um compilado de narrativas mitológicas ou das referências de Neil Gaiman, o grande mérito de Mitologia Nórdica é o de nos deixar fascinados com estas histórias, como se fosse a primeira vez que as ouvíssemos, ainda que elas já nos pareçam assim tão familiares.


Multiverso X.:20 - Como Conheci o Deus Americano Designado







No episódio de hoje o capitão Ace Barros, o navegador Airechu, o piloto da Interlúdio Julio Barcellos e a imediata Hall-e, resolveram fazer uma grande pausa para maratonar séries e de quebra trazer indicações de algumas que estão assistindo neste momento!
Ouça e descubra com os Mosby como Ted conheceu sua mãe - a deles, não a sua - e entenda a amizade entre Robin, Marshall, Barney e Lily. Acompanhe as descobertas de Shadow Moon por um mundo repleto de deuses antigos e modernos em uma Road Trip rumo a guerra divina definitiva. Auxilie Tom Kirkman na difícil jornada presidencial enquanto os mistérios sobre a conspiração por traz da explosão no capitólio são desvendados pela agente Hannah Wells.
Acompanhe-nos, estimado explorador de universos! 

COMENTADOS NESTE EPISÓDIO:

How I Met Your Mother
IMDB - ADORO CINEMA - WIKIPEDIA 
American Gods
IMDB - ADORO CINEMA - WIKIPEDIA - AMAZON - RESENHA DO LIVRO
Designated Survivor
IMDB - ADORO CINEMA - WIKIPEDIA - NETFLIX - CRÍTICA O GLOBOPQPCAST 138

1 Hora 11 Minutos 31 Segundos

QUER OUTRAS OPÇÕES:

Reproduzir Em Uma Nova Aba - Faça o DownloadArquivo Zip

A TRIPULAÇÃO NAS REDES:


Twitter: @MultiversoX @CapAceBarros - @_Airechu - @JulioBarcellos
Instagram: @multiversox - @_airechu @juliobarcellos
Facebook: Multiverso X

QUER O FEED PARA ADICIONAR NO SEU AGREGADOR FAVORITO?

Assine o nosso feed: feeds.feedburner.com/multiversox/podcast

SUGESTÕES, CRÍTICAS E DÚVIDAS:

Envie e-mails para: contato@multiversox.com.br


As Tumbas de Atuan

Quando Tenar é escolhida como suma sacerdotisa, tudo lhe é tirado: casa, família e até o nome. Com apenas 6 anos, ela passa a se chamar Arha e se torna guardiã das tenebrosas Tumbas de Atuan, um lugar sagrado para a obscura seita dos Inominados.
Já adolescente, quando está aprendendo os caminhos do labirinto subterrâneo que é seu domínio, ela se depara com Ged, um mago que veio roubar um dos maiores tesouros das Tumbas: o Anel de Erreth-Akbe.
Um homem que traz a luz para aquele local de eternas trevas, ele é um herege que não tem direito a misericórdia.
Porém, sua magia e sua simplicidade começam a abrir os olhos de Arha para uma realidade que ela nunca fora levada a perceber e agora lhe resta decidir que fim terá seu prisioneiro.
Finalista da Newbery Medal, que premia os melhores livros jovens de cada ano, As Tumbas de Atuan dá continuidade ao elogiado Ciclo Terramar com uma singela história que rompeu com os paradigmas de heroína quando foi lançada.
Título: As Tumbas de Atuan
Série: Ciclo Terramar - Livro 2
Autor (a): Ursula K. Le Guin
Editora: Arqueiro
Número de páginas: 160

SKOOB - COMPARE E COMPRE - LOJA RECOMENDADA

Os extras trazidos ao fim das edições de Ciclo Terramar produzidos pela Editora Arqueiro são tão importantes para leitura das obras quanto o conteúdo em si. Não por trazerem glossários e informações sobre cenário e afins, mas por trazer a visão da autora sobre a criação daquela obra. No volume anterior, Ursula K. Le Guin nos contra sobre o desafio de trazer o jovem, o heróis falho, para aquela habitual visão de magos sempre experientes e poderosos, e assim nos contou a história de Gavião. Aqui, Ursula nos conta sobre como nunca teve a intensão se escrever uma série, prática hoje muito comum, mas como sentiu necessidade de voltar a Terramar e falar sobre os tais feitos realizados por Ged, citados na última página do volume anterior. Um desses feitos é justamente a visita à As Tumbas de Atuan.
As Tumbas de Atuan narra a história de uma das aventuras do mais poderoso conjurador de todos os tempos, o homem conhecido pela alcunha de Gavião. Mas se engana se acredita que a história é protagonizada por ele. a trama pertence a Arha.
No oeste de Terramar, afastadas do Arquipélago, estão As Terras de Kargard. vive a jovem Arha, a Devorada, Rei-Deus de Awabath, Sumo Sacerdotisa dos Inominados. Todos esses títulos e importância lhes foram dados ao ser designada como reencarnação da grande Sacerdotisa: a partir dali, tudo fora tirado - casa, família, nome, futuro - em nome da devoção e da fé a seita dos Inominados. Seu dever é aprender com as mais velhas e ser a guardiã das Tumbas de Atuan.
Contudo, mesmo crescendo cercada por essa cultura e abdicando de si própria, Arha não consegue disfarçar a sensação de vazio que a preenche. A jovem é curiosa e aproveita os momentos que tem para conhecer um poucos do mundo nas conversas sonhadoras de Penthe, e sobre seu serviço e os mistérios das Tumbas de Atuan com as sacerdotisas Thar e Kossil, e o eunuco Manan. Sua vida estava destinada ao sacerdócio, os sacrifícios aos antigos, as punições aos hereges e a proteção de seu templo, e não havia nada ela pudesse fazer. E assim bem seria se não fosse a chegada de estranho visitante. Um homem de tez negra que profanou o labirinto e os salões cavernosos com sua magia e sua luz em busca dos tesouros dos Inominados.
Luz essa que aos poucos foi trazendo a verdade aos olhos de Tenar, que novamente voltou a ter nome e esperança. Mas quem ajuda quem nessa história, só tempo e a leitura dirão...
É bom voltar ao destaque dado na resenha do volume anterior da série e deixar claro que antes de qualquer crítica é preciso lembrar que este é um livro publicado pela primeira vez em 1970, e por mais que já houvessem outras obras com tendências a maior agilidade e abordagem nos diálogos, a narrativa se apoia exatamente na narração para passar ao leitor tudo aquilo que a trama tem para mostrar. Estar ciente disto antes de arremessar-se ao livro é fundamental para aproveitá-la da melhor forma possível: você não vai encontrar nestas páginas nada de parecido com as narrativas de fantasia modernas, quase sempre ágeis e enviesadamente épicas.
Mantendo o padrão utilizado em O Feiticeiro de Terramar, a autora opta por utilizar-se de uma narração em terceira para contar a história da jovem Tenar/Arha que, apesar de dar velocidade aos acontecimentos, pode acabar desagradando alguns leitores acostumados com o maior uso de diálogos complementado o texto. Como dito anteriormente, por conta dessa escolha a trama é quase toda passada através da narração, mas isso longe está de ser um demérito. Curiosamente foi esse um dos aspectos que mais me agradou durante a leitura da série.
A linguagem do livro é simples, a leitura é ágil, pouco focada em detalhar a tudo e a todos, mas mostra o que precisa ser mostrado. O cenário criado por Ursula é novamente ricamente explorado e dessa vez mais auto-contido em uma única região, visto que o foco da trama estão nas Tumbas de Atuan e em Tenar. E assim sendo, assim como a jornada de Ged/Gavião em o Feiticeiro de Terramar, essa é uma história sobre crescimento e os próprios erros e fraquezas. Só que agora protagonizada por um personagem feminino.
Como já citado, os extras publicados ao fim da história trazem muita informação importante que acabamos não nos dando conta durante a leitura e também sobre a autora e processo de escrita da obra. Pelo cuidado de incluir esse adendo, pelo trabalho gráfico e, claro, por trazer a obra, a editora já merece um parabéns. A arte das edições da Editora Arqueiro chamam logo a atenção, isso é inegável. Contudo a escolha, proposital ou não, da Ursula Dorada - artista que admiro - como ilustradora das capas da xará deram um toque especial.
Avisado sobre as expectativas, creio que todo o Ciclo Terramar tem tudo para agradar jovens e adultos, em especial aqueles que gostam de livros de fantasia e conhecer obras que inspiraram autores que tanto gostamos. Agora, aguardo ansiosamente para ver o que mais Ursula Le Guin e Terramar tem a me mostrar!



Fahrenheit 451

Queimar livros foi um recurso usado em tempos sombrios, como o da Santa Inquisição e o do nazismo, para eliminar ideias resistentes à crença sanitária no pensamento único. No mundo futuro concebido por Ray Bradbury (1920-2012) em Fahrenheit 451, ler tornou-se um ato subversivo e os que insistem em ter pequenas bibliotecas às escondidas podem virar cinzas junto com seus volumes. O devaneio, a poesia, a filosofia e a ficção foram extintos porque não se admite perder tempo com algo que, em vez de puro entretenimento, ofereça inquietação e angústia. Como toda ficção científica, essa distopia publicada em 1953 emite os sinais negativos da época em que foi escrita. Mas, se a redução das ideias ao binarismo, o desprezo ao intelectual, o fluxo de informações num nível inassimilável e a suspeita de qualquer sinal de melancolia já eram considerados fatores de risco em meados do século passado, nossa civilização anestésica fez do futurismo de Bradbury um gênero bem mais próximo do realismo. Cássio Starling Carlos Crítico da Folha
Título: Fahrenheit 451
Título Original: Fahrenheit 451
Coleção: Folha Grandes Nomes Da Literatura (vol.23)
Editora: Folha de S.Paulo
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Cid Knipel
Ano: 2016 / Páginas: 168


Ao lado de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley e 1984 de George Orwell, Fahrenheit 451 de Ray Bradbury integra um clássico trio de romances distópicos, obras que narram versões futuristas da sociedade que de alguma maneira deram muito erradas, caracterizadas pela extrema opressão, privação e desespero com o objetivo de criticar tendências da sociedade atual, ou parodiar as utopias, alertando para os seus perigos.
A sociedade descrita em Fahrenheit 451 é comandada por um governo totalitário num futuro próximo e numa América em guerra nuclear com outros países enquanto a maioria de sua população vive num estado de torpor e alienação hedonista reforçados pela tecnologia e pela mídia e pela incapacidade de pensar de maneira mais aprofundada e crítica sobre sua própria condição. Ao contrário das outras distopias, aqui o totalitarismo é mais sutil e se encontra enraizado na sociedade através do poderio midiático e do consumismo e não tanto nos regimes governamentais.
As pessoas comuns têm seus sentidos bombardeados o tempo todo com os mais diversos estímulos, elas tapam os ouvidos com conchas que tagarelam o tempo todo, dirigem carros a velocidades tão altas que não notam sequer os contornos da cidade, a paisagem e o céu, assistem a várias telas simultâneas em suas salas com programas histéricos, coloridos e assim se distraem e se desconectam da própria realidade. Não há tempo e nem estímulo para pensar, não há espaço para a dúvida e o questionamento crítico, tudo lhes é entregue digerido e simplificado ao máximo sobretudo pela mídia. Apenas lhes é exigido que saibam ler manuais básicos para operar aparelhos. Ler para qualquer outro fim é um crime e a maioria das pessoas vê isso como uma tarefa desagradável, cansativa e infrutífera, uma subversão abominável. Aqueles que se são descobertos lendo ou portando um livro são imediatamente denunciados aos bombeiros.
Os bombeiros aqui não mais precisam apagar incêndios pois através de uma avançada tecnologia todas casas são dotadas de um revestimento plástico antichamas. Como os livros são mal vistos socialmente e proibidos pelo governo, ironicamente cabe agora aos bombeiros atear fogo aos mesmos e as casas que os abrigam e, caso necessário, também aos seus proprietários, vistos como verdadeiros criminosos e um perigo para sociedade. O protagonista, Guy Montag, é um desses bombeiros, assim como foram anteriormente seu pai e seu avô, e sua rotina é relativamente simples, habituado ao trabalho, que cumpre com prazer e sem exitar, ele retorna ao fim do dia para casa onde vive com Millie, sua esposa, no que julga ser uma vida plenamente feliz e satisfatória.
Isso começa a mudar quando ele conhece Clarisse McClellan, sua nova vizinha, uma jovem que demonstra uma curiosidade fora do comum sobre o mundo, a natureza e o próprio Montag. As conversas entre ambos passam a ser frequentes e a forma estimulante como Clarisse o indaga sobre tudo faz com que Montag desperte e se dê conta da própria alienação, do vazio e da infelicidade em que vive. O amor a esposa e ao trabalho deixam de ser certezas absolutas e ele passa a sentir uma espécie de aversão pelo próprio estilo de vida. Isso o leva a desenvolver uma curiosidade cada vez maior sobre os livros que queima, afinal o que há neles que os fazem ser tão perigosos? Assim, acompanhamos Montag pondo em cheque todas as suas certezas e conduzindo uma empreitada tanto em busca de autoconhecimento quanto de uma maior compreensão crítica da sociedade na qual está inserido e obviamente ele será ferozmente perseguido por isto.
Com um texto fluido, numa narrativa eletrizante em terceira pessoa, o livro se divide em três partes e é permeado de grandes momentos e passagens, das mais perturbadoras como na cena em que uma mulher prefere atear fogo nos próprios livros, na própria casa e ao próprio corpo a se entregar aos bombeiros até as mais metafóricas como a que Beatty, o chefe dos bombeiros e de Montag duela com o protagonista citando trechos de diversas obras literárias. A edição da Folha de S. Paulo usa a mesma tradução de Cid Knipel para o selo Biblioteca Azul da Editora Globo e traz um Posfácio e o Coda, ambos escritos pelo próprio Bradbury onde o autor detalha o processo de gênese desta obra e reforça a sua crítica ao entretenimento barato oferecido pela mídia, sobretudo a TV, mas que se aplica igualmente nos dias de hoje também à internet.
Se há um ponto em que discordo do autor é no Coda, lá ele nos conta as motivações iniciais que o inspiraram a escrever essa obra e menciona a questão das minorias. Na trama de Fahrenheit 451 é revelado que em dado momento da História os livros começaram a sofrer tantas interferências editoriais para atender as demandas das inúmeras minorias que aos poucos foram se tornando insossos e irrelevantes, pasteurizados a tal modo que se tornaram incapazes de manter acesa a chama do incômodo tão pertinente na literatura apenas para se adequar a um politicamente correto que nada mais é do que uma censura velada. Eis o ponto. A luta das minorias e sua busca por espaço e melhor representatividade é justa e necessária, e discordo que isso coíba qualquer autor que seja a censurar suas pretensões artísticas para atender valores ou anseios com os quais ele não concorda ou simplesmente não quer abordar, muito menos o força a revisar o que já publicou limando o seu trabalho e a sua arte.
Em Fahrenheit 451 é dito que há muitas formas de se queimar livros, e em minha opinião silenciar as minorias também é uma delas. Felizmente, ao contrário dos rumos traçados no universo distópico de Bradbury, temos visto que aos poucos a inclusão e o atendimento de demandas sociais reprimidas não apenas estimula um debate mais amplo como também enriquece a experiência do todo dada a maior diversificação e a abrangência dos conteúdos agora oferecidos.
Fahrenheit 451 foi umas das melhores e mais gratificantes leituras que fiz nos últimos tempos. Sua história aparentemente simples num romance tão curto traz consigo tantas reflexões e metáforas que seria impossível enumerar neste espaço. Sua crítica ainda é tão atual, relevante e pertinente quanto quando fora escrito em 1953 e percorrer suas páginas é uma jornada estimulante, inquietante e prazerosa, como todos os livros deveriam ser.
Talvez soe um pouco sádico o que vou dizer, mas este livro sobre livros sendo queimados é tudo o que qualquer leitor precisa ler. Muito mais do que reforçar nosso encanto por estes objetos fascinantes, sabiamente um importante instrumento da perpetuação do saber e da cultura humana, Fahrenheit 451 nos mostra que os livros são armas perigosas contra a ignorância, a cegueira e a passividade, mas que de nada adiantam se estiverem fechados enquanto nos encerramos numa bolha de entretenimento vazio. Se ler é um ato subversivo, sejamos todos subversivos, leíamos mais, leíamos Fahrenheit 451!
PS: Nenhum livro foi maltratado, ferido ou queimado durante a produção desta resenha, mas não podemos afirmar o mesmo sobre o autor da mesma.

Pétalas







Pétalas conta a história de uma família de raposas cuja vida é transformada pela chegada de um estranho visitante durante um rigoroso inverno. Coedição entre Jupati Books (Marsupial Editora) e Tambor Quadrinhos.





Título: Pétalas
Autor: Gustavo Borges (roteiro e arte) e Cris Peter (cores)
Editora: Jupati Books e Tambor Quadrinhos
Número de Páginas: 56



As vezes palavras não são necessárias para contar uma narrativa e nos emocionar. Gustavo Borges sabe bem disso. Contudo não posso fazer o mesmo e poupar palavras nesse momento: por mais curioso que possa parecer, preciso contar a vocês a história de como uma HQ "muda" me deixou sem palavras...
Apesar da pouca idade, o quadrinista gaúcho Gustavo Borges sempre demonstrou em seus trabalhos a maturidade e sensibilidade que fazem dele uma das promessas do quadrinho nacional. Com a experiência acumulada após criar duas séries de quadrinhos para web em formato de tirinhas - Edgar - Em Busca da Energia dos Ventos e A Entediante Vida de Morte Crens - resolveu em 2015 que era hora de tentar algo novo: uma narrativa sequencial em formato vertical que contasse uma única história. Assim nasceu Pétalas, e seu intuito era um só: ser uma história sobre Generosidade.
Em triste, longo e rigoroso inverno, uma família de raposas composta por Pai e Filho tenta sobreviver ao frio e percalços da estação. Certo dia no entanto, enquanto a pequena raposa buscava lenha em meio a floresta nevada, surge um carismático e misterioso pássaro. A ave com ares ora de médico, ora de mágico, se mostra solicita e ajuda o rapazinho com sua tarefa, retirando de sua cartola gravetos suficientes para que possa retornar para casa. Desse encontro, nasce uma relação bela e sincera, que irá marcar a vida dos personagens da história e também dos leitores.
Mesmo sem se utilizar de uma palavra sequer durante toda a narrativa, Gustavo consegue estabelecer não apenas as relações entre aqueles personagens - a pequena raposa, seu pai adoentado e o pássaro gentil - mas constrói toda uma história onde as palavras não fazem a menor falta. Tudo isso deve-se ao belo trabalho de roteiro e expressividade de seu traço.
É quase impossível resistir a doçura da trama e aos carisma do simpático e sua incrível e contagiante capacidade de ajudar aos próximo. O estilo da arte de Gustavo, que em muitos momentos remetem a uma obra Disney, encontra o equilíbrio perfeito entre o divertir e emocionar o leitor, sem nunca fugir do objetivo do subtexto que permeia a trama. O trabalho de cores de Cris Peter complementa e engrandece a obra, não dando mais graça aos desenhos, como também contribuindo para tornar o tom da obra e o frio do inverno mais palpável.

Pétalas, publicada pelo selo Jupati Books e Tambor Quadrinhos, surgiu originalmente como um projeto de Financiamento Coletivo que tinha como meta R$ 5 mil para conseguir sua públicação, número que alcançou em apenas 24 horas. O feito impressiona pelos números: um total de 1.433 apoiadores, e uma soma que passa dos R$ 50 mil. Isso significa mais de 1068% acima do esperado. Reconhecimento e apoios mais do que merecidos!
Além da história, o encadernado traz artes feitas por outros artistas, como Vitor e Lu Cafaggi e Eduardo Damasceno, revisitando os personagens da HQ. As últimas páginas são destinadas por um Making Of bilíngue mostrando o processo criativo e de produção do livro: algo que permitiu, junto com o fato da história não ter textos, que Pétalas fosse mais facilmente publicada também no exterior.
Pétalas é com toda certeza é uma obra que merece todos os méritos, elogios e conquistas que tem alcançado. O trabalho de Borges e Peter é simplesmente encantador, e gostaria muito de em breve vê-los novamente em um novo trabalho. Seria demais sonhar em ter Gustavo e Cris juntos a frente de uma Graphic MSP?

O Coração das Trevas

Como oficial da Marinha Mercante, Joseph Conrad (1857-1924) viajou pelo interior do Congo em 1890. A brutalidade do colonialismo belga naquela região, chocante até para os padrões da época, despertaria protestos de jornalistas e escritores como Mark Twain e Conan Doyle. No romance O coração das trevas, publicado em 1899, Conrad não faz apelo a cenas de impacto.
A história do capitão Maslow, a bordo de um precário navio que se embrenha no interior da África, parece cercada sobretudo de uma névoa de desentendimento, de alusão e desmemória. Trata-se de ir em busca de um certo Kurz, de quem todos elogiam a inteligência excepcional. Encarregado de dirigir a exploração do marfim no mais distante posto da companhia, Kurz deixou de dar notícias; rumores sobre cultos bárbaros e sobre seu colapso moral e mental acompanham a lenta viagem do narrador. Ele descobre não só a fragilidade da civilização europeia, mas também o terror à espreita na alma de cada um. Marcelo Coelho Colunista da Folha
A Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura traz ao público 28 ilustres autores da literatura mundial cujos clássicos marcaram gerações de leitores. Entre eles estão Machado de Assis, Fernando Pessoa, Eça de Queirós, Oscar Wilde, Virginia Woolf, Joseph Conrad, Tolstói e outros renomados autores.
Título: O Coração das Trevas
Título Original: Heart of Darkness
Coleção: Folha Grandes Nomes Da Literatura (vol.19)
Editora: Folha de S.Paulo
Autor: Joseph Conrad
Ano: 2016 / Páginas: 111


"Antes do Congo eu era um mero animal" Atribuída ao autor Joseph Conrad, escritor britânico de origem polaca, após uma traumática estadia como oficial da marinha mercante no Congo Belga em 1890, esta frase faz referência à verdadeira noção de humanidade que ele adquiriu após presenciar todo o horror e a brutalidade do imperialismo nas colônias das potências européias na virada dos séculos XIX para XX na África. Além dessa profunda mudança em sua visão de mundo e percepção de humanidade, tal experiência também lhe serviu de inspiração para aquela que viria a se tornar a sua obra mais famosa, O Coração das Trevas, publicado originalmente em 1899 e hoje tida como um dos grandes clássicos do século passado.
Nela, acompanhamos a viagem do protagonista Charles Marlow, um jovem inglês movido pelo desejo de aventura e ambição, recém contratado por uma companhia de comércio belga como capitão de um barco à vapor, aos territórios das colônias africanas. A viagem tinha como objetivo principal o transporte de preciosas cargas de marfim e outras especiarias rio abaixo, mas Marlow acaba recebendo também a urgente missão de procurar e resgatar o Sr. Kurtz, um dos mais importantes e famosos administradores dos entrepostos coloniais. Kurtz deixou de dar notícias há meses e seu real paradeiro é desconhecido e estranhamente parece ser ignorado por todos na região. Boatos de que ele teria fundado em plena selva uma comunidade própria aumentam o suspense e o mistério que cercam o homem outrora elogiado pela inteligência excepcional ao passo que as dificuldades logísticas envolvidas no deslocamento complicam a missão transformando aos poucos a aventura de Marlow num verdadeiro inferno.
Há de se ressaltar a beleza minuciosa do texto de Conrad. Sua prosa faz com que sintamos a presença avassaladora e selvagem da floresta enquanto descemos o rio congolês num barco a vapor com seus personagens. Uma atmosfera densa, sufocante e opressiva é criada e parece pesar sobre nós, nos atraindo página após página para mais e mais fundo, rumo ao coração das trevas, uma metáfora simbólica tanto do interior inóspito e desconhecido das selvas africanas quanto ao verdadeiro refúgio do mal na alma humana, expresso sobretudo na sua conduta violenta de dominação.
Aos olhos de hoje é impossível não se incomodar com a forma como são representados e com o pouco enfoque dado aos povos nativos da África na narrativa, mas o livro tem grande êxito, sem apelar à comoção banal das cenas de impacto, em tecer uma crítica pertinente ao sistema colonialista e a visão da Europa como o grande bastião civilizatório e balizador moral da humanidade em voga na época. Durante a leitura fica claro que civilização e barbárie nada mais são do que facetas dicotômicas e cruéis duma mesma moeda.
O Coração das Trevas foi uma leitura no mínimo gratificante! Carregado de metáforas e simbolismos num texto de escrita fluida e poética, o livro propicia muito mais do que uma aventura envolvente nas selvas desconhecidas e inóspitas do Congo ou um relato histórico vergonhoso de uma época marcada pela exploração desenfreada do homem pelo homem. Ao retratar em seu cerne a corrupção, a decadência moral e a perversão da alma humana, ele nos coloca invariavelmente em contato também com as trevas que trazemos conosco e talvez nem nos demos conta. Afinal, do que ainda somos capazes em nome da melhor das intenções? Creio que a resposta evoque uma das mais famosas e impactantes frases deste livro e tal como Marlow ao fim de sua jornada e muito provavelmente também Conrad, ainda me sinto assombrado por ela! “O horror! O horror!” Recomendo!