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O Último Desejo: A Saga do Bruxo Geralt de Rívia



Geralt de Rívia é um bruxo sagaz e habilidoso. Um assassino impiedoso e de sangue-frio treinado, desde a infância, para caçar e eliminar monstros. Seu único objetivo: destruir as criaturas do mal que assolam o mundo. Um mundo fantástico criado por Sapkowski com claras influências da mitologia eslava. Um mundo em que nem todos os que parecem monstros são maus nem todos os que parecem anjos são bons...



Título: O Último Desejo
Autor (a): Andrzej Sapkowski
Série: The Witcher - 1 (ou A Saga do Bruxo Geralt de Rívia - 1)
Editora:WMF Martins Fontes
Número de páginas: 318

SKOOB - COMPARE & COMPRE - LOJA RECOMENDADA 

Um grande sucesso da literatura de fantasia mundial. Pois é! Talvez você não conheça ou já tenha ouvido falar, mas a série Wiedźmin, traduzida como A Saga do Bruxo Geralt de Rívia, ou mais conhecida The Witcher por conta da sua adaptação aos jogos eletrônicos, é uma das obras mais populares na Europa; principalmente na sua terra natal, a Polônia, onde é tratada como um de seus tesouros nacionais (sério! Obama chegou a ser presenteado com cópia do jogo em uma visita oficial em 2011). Como fã de literatura fantástica e curioso é claro que precisava conhecer a tão comentada e recomendada obra...
Em um cenário mágico e sombrio seres humanos dividem o mundo com seres fantásticos como elfos, anões, ananicos, dríades e também com monstros dos mais diversos tipos. Há de ser dito, é claro, que o ser humano está rumando então para sua ascensão, tomando todo o espaço possível e até colocando em dúvida quem são os verdadeiros monstros na questão. Com a expansão e invasão territorial, os conflitos humanos são cada vez mais destaque e a era dos monstros parece contada, mas felizmente para Geralt ainda há trabalho para um bruxo como ele.
O trabalho de um bruxo é caçar monstros malignos e eliminá-los, cobrando devidamente o preço adequado, é claro. É pra isso que são treinados desde a infância, é para isso que sofrem modificações corporais para suportar os efeitos de poções e preparados que matariam um humano comum, e é pra isso que usam armas especiais e sinais mágicos. Para o bem ou para o mal, sua fama os precede e o bruxo conhecido pela alcunha de Lobo Branco (por ter os pelos todos brancos graças aos procedimentos mágicos) vive na pele esses efeitos.
Em O Último Desejo acompanhamos Geralt de Rívia em uma jornada permeada por diversas aventuras. Você não entendeu errado: enquanto a trama principal segue por uma linha reta, levando do ponto A ao B, temos capítulos intercalados que trazem outras histórias do bruxo. Somos apresentados a um protagonista já formado e experiente, lidando com as mudanças no mundo ao seu redor, e enquanto isso conhecemos um pouco mais sobre ele, o cenário e os personagens ligados a ele através de contos. 
Talvez isso seja um dos grandes acertos dessa obra. Sapkowski não cria rodeios ou tenta nos apresentar seu mundo de fantasia aos poucos em uma história longa, mas o faz através de série de ágeis histórias ligadas entre si pelo mesmo personagem. O que talvez fosse uma jogada arriscada por conta das pausas na trama principal mostra-se até mais encantador, pois cada aventura é fechada em si e não atrapalham em momento algum o ritmo. É planejado para que funcione não apenas como um romance, mas como uma antologia de contos bem amarrados na narrativa.
A escrita de Sapkowski apresenta um misto do clássico com o moderno, o que torna o texto simples e de fácil compreensão, mas sem perder os ares do fantástico habitual. Geralt é um herói comum, apesar de sua capacidade para feitos extraordinários, e isso é refletido no texto. Os diálogos são sujos e sem rebuscamentos forçosos, adepto até de alguns palavrões memoráveis. A descrições, principalmente nas cenas de ação, vão a onde precisam ir e não passam perto do enfadonho. São diversas histórias, não da pra se prolongar esmiuçando coisas que não são importantes.
Os personagens são aprofundados apenas o suficiente para que funcionem na história, sem necessidade de conhecermos a fundo todo seu passado. Além de Geralt, conhecemos a Feiticeira Yennifer, uma mulher independente e decidida que meche com os brios do bruxo; o boêmio bardo Jaskier, famoso por suas histórias, canções e ser conquistador barato; além de outros que são velhos conhecidos de outros cantos com novas roupagens...
Tal qual Tolkien se arriscou a criar uma história que uniria folclore e contos de fadas em um único universo, o autor aqui também o faz direta ou indiretamente. Pra mim foi uma surpresa enorme adentrar na narrativa de um conto sombrio e de repente entender referências a uma ou outra história famosa. E o melhor: sem que isso parecesse caricato, ou uma sátira, encaixando perfeitamente com o contexto inserido. Independe de você entender ou não a questão, a história irá funcionar.
Sobre a publicação o livro possui duas edições distintas publicadas quase simultaneamente pela WMF Martins fontes. As diferenças ficam no formato, capa e trabalho gráfico, mantendo é claro o mesmo conteúdo. A razão para tal é apenas mercadológica, visto que a série já vinha sendo publicada desde 2011 e recebeu capas com artes dos jogos posteriormente para atrair o público habituado a eles.
O Último Desejo é uma perfeita porta de entrada para o universo The Witcher ao mesmo tempo que entrega ao leitor uma boa obra contida em si. Não a nada aqui que obrigue o leitor a continuar lendo os livros da séries. A não ser talvez a curiosidade e o prazer de acompanhar as aventuras e desventuras do carismático e soturno bruxo Geralt de Rívia. Exatamente o que aconteceu comigo e certamente foi notado durante todo este texto...

Laranja Mecânica

Clássico eterno da ficção científica, Laranja Mecânica é um verdadeiro marco na história da cultura pop e da literatura distópica. Narrada pelo protagonista, o adolescente Alex, esta brilhante e perturbadora história cria uma sociedade futurista em que a violência atinge proporções gigantescas e provoca uma resposta igualmente agressiva de um governo totalitário.
A estranha linguagem utilizada por Alex, conhecida como Nadsat, merece destaque na obra, criada pelo próprio Burgess, fornece ao romance uma dimensão quase lírica.
A trama, que conta a história da violenta gangue de adolescentes que sai às ruas buscando divertimento de uma maneira um tanto controversa, incita profundas reflexões sobre temas atemporais, como o conceito de liberdade, a violência – seja ela social física ou psicológica – e os limites da relação entre o Estado e o Indivíduo.
Ao lado de 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, Laranja Mecânica é um dos ícones literários da alienação pós-industrial que caracterizou o século 20. Adaptado com maestria para o cinema em 1972 por Stanley Kubrick é uma obra marcante: depois da sua leitura, você jamais será o mesmo.
Título: Laranja Mecânica
Título Original: A Clockwork Orange
Autor: Anthony Burgess
Tradução: Fábio Fernandes
Editora: Aleph
Ano: 2012 / Páginas: 352


Laranja Mecânica é um livro bastante influente e conhecido e costuma dispensar apresentações pela ampla influência que exerce na cultura pop como um todo. Escrito por Anthony Burgess em 1962 o livro é uma distopia e é aclamado por sua crítica social refinada e também pela atemporalidade dos temas que aborda sobretudo a violência urbana, os limites entre indivíduo e Estado, a liberdade e a juventude.
O livro conta a história de Alex, um jovem adolescente amante de música clássica e líder de uma gangue de delinquentes juntamente com quem promove atos violentos e criminosos, principalmente roubo, agressão física e estupro, tendo como único fim a diversão em madrugadas regadas a leite misturado com drogas sintéticas.
Suas vida sofre uma guinada quando numa dessas noites de violência ele é capturado pela polícia e preso por assassinato. Lá, em troca de uma redução da sua pena, ele se candidata como cobaia de uma nova técnica para a contenção da violência que está sendo desenvolvida pelo Estado, a Técnica Ludovido. O objetivo dela é sensibilizar o paciente pela violência condicionando seus instintos para que eles reajam com um extremo mal estar diante dela. O indivíduo ao fim do tratamento se tornaria totalmente dócil e incapaz de cometer qualquer ato violento, ainda que queira, se tornando assim um modelo de cidadão ideal.
O livro é dividido em três partes e possui ao todo 21 capítulos, sendo narrado na primeira pessoa pelo próprio Alex, é como ouvir um relato das memórias do personagem saindo de sua própria boca e portanto nem tudo que é dito pode ser considerado confiável.
Alex é vil e mau e se orgulha disso e desde o início da sua narrativa somos impelidos a pensar que ele merece pagar por todos os seus atos violentos e crimes, mas quando a medida punitiva adotada ultrapassa todos os limites da liberdade individual em nome de um suposto bem maior para todos percebemos que o Estado foi tão violento quanto o jovem em sua tentativa de conter a criminalidade e passamos a rever essa nossa sede de justiça. É perturbador nos darmos conta de que quando deixamos ou apoiamos que o Estado prive um único indivíduo de um dos seus direitos mais básicos, ainda que pelo bem de todos, todos nós saímos perdendo enquanto sociedade e não há uma garantia sequer de que os próximos a sofrer as consequências disto sejamos nós mesmos. É melhor ter a possibilidade de escolher entre o bem e o mal correndo o risco de optar pelo mal como Alex, do que sequer ter outra opção que não seja o bem e um bem que praticamente nos inviabiliza de sermos nós mesmos dado os efeitos colaterais da técnica empregada. É curioso notar que a única voz dissonante quanto a isto no romance seja a do religioso, o cardeal da prisão é o único a contestar pública e veementemente o uso da Técnica Ludovico e as suas implicações morais e éticas e tendo a concordar com a sua visão sobre o assunto. Os movimentos políticos de oposição ao governo totalitário no livro estavam mais preocupados em se aproveitar do caso de Alex para se autopromover e não tanto com a ética da questão e a preservação do pensamento livre e tampouco com o bem estar social e do indivíduo.
Além da violência exacerbada e do conflito entre indivíduo e estado, outra discussão que se sobressai é a do próprio crescimento e do conflito de gerações, sobretudo quando lemos o capítulo extra excluído da primeira edição norte-americana, mas presente na íntegra aqui. A juventude, em qualquer época que seja, sempre despertou uma certa incompreensão e incômodo por parte das gerações mais velhas. É característica do jovem, seja pelos hormônios em explosão ou pela inexperiência com o horizonte adulto que se desenha a frente, o confrontamento, a rebeldia e o inconformismo. Alex é em essência um retrato dessa fase da vida, é alguém testando os próprios limites, gozando ao máximo da liberdade e da própria inconsequência. Ao final, sem que ninguém o diga ou o force, ele percebe que simplesmente cresceu e que o que fazia já não lhe cabe mais, que já não faz mais sentido se comportar daquela forma, ele está velho. Em seu âmago a maturidade despertou e sepultou aquilo que a juventude representava para ele. Não há como não sentir uma certa empatia por ele neste ponto e ao mesmo tempo recordar que até bem pouco tempo eu também era cheio de certezas, daquelas que apenas a juventude é capaz de nos fazer ter. Ler Laranja Mecânica, de certa forma, é também penetrar o drama incerto e quase cruel da adolescência e a sua transição para a vida adulta e talvez seja isso o que torne Alex um personagem adorável, ainda que detestável.
Pelas inúmeras referências na cultura pop, sobretudo na música e por saber da existência da adaptação para o cinema de Stanley Kubrick, diretor que admiro sobretudo pela adaptação de 2001: Uma Odisséia no Espaço, um outro clássico moderno, sempre nutri uma curiosidade por Laranja Mecânica. Mas esta era uma obra que me deixava sempre com o pé atrás pela presença duma característica: o nadsat, um dialeto composto de palavras inteiramente criadas ou adaptadas pelo autor para emular um conjunto de gírias usados pelos adolescentes do seu universo ficcional e inclusive por Alex enquanto narrador o que confere ao livro e ao personagem uma voz própria e bem característica. Achei que encontraria um texto truncado e hermético cuja compreensão plena fosse reservada apenas aos leitores mais dispostos a fazer pausas constantes para consultar o glossário, mas devo confessar minha surpresa pois não encontrei nada disto e me surpreendi com a cadência e fluidez do texto!
As palavras do nadsat inicialmente causam sim um estranhamento, mas é possível entender todo o contexto de boa parte delas pela narrativa de Alex de modo que consultei o glossário pouquíssimas vezes. Certamente isso também se deve ao cuidado despendido com a tradução para o português, destacado num dos textos extras no qual o tradutor Fábio Fernandes comenta justamente algumas de suas escolhas de tradução.
Vale mencionar que a edição especial comemorativa dos 50 anos da publicação original da editora Aleph vem repleta de textos, artigos e entrevistas que ressaltam a relevância e a influência deste romance ao longo deste período, além de contar com um projeto e acabamento gráficos que fazem jus ao termo “de colecionador” e trazer também ilustrações inéditas de Angeli, Dave McKean e Oscar Grillo, exclusivas da edição brasileira. Destaca-se a presença marcante da cor laranja, a única, além do preto e do branco na obra, bem como a jacket, a capa dura e as páginas do miolo em couche. Sem dúvidas a melhor e mais completa edição deste romance e um item indispensável e de muito bom gosto para a estante de qualquer fã de distopias, de ficção científica e de boas histórias.
Uma simples resenha sequer daria conta de discutir alguns dos muitos aspectos levantados durante a leitura do livro e certamente ele é ainda melhor por não oferecer uma resposta definitiva sobre todos estes temas. Sua relevância se encontra mais na discussão e nas dúvidas que nos desperta e que nos acompanharão por um longo tempo dada a sua atemporalidade do que no drama pessoal de Alex. É uma leitura incômoda e necessária, que como todas as boas distopias, testa nossos limites morais e éticos a todo instante, e da qual é impossível se sentir isento seja de ódio, culpa ou compaixão. E então, o que é que vai ser, hein? Leiam!

O Escravo de Capela

“Cada página é como um golpe cruel de chicote. E sai muito sangue!”
RAPHAEL MONTES — Autor de Dias Perfeitos e Jantar Secreto Secreto

Durante a cruel época escravocrata do Brasil Colônia, histórias aterrorizantes baseadas em crenças africanas e portuguesas deram origem a algumas das lendas mais populares de nosso folclore.
Com o passar dos séculos, o horror de mitos assustadores foi sendo substituído por versões mais brandas. Em O Escravo de Capela, uma de nossas fábulas foi recriada desde a origem. Partindo de registros históricos para reconstruir sua mitologia de forma adulta, o autor criou uma narrativa tenebrosa de vingança com elementos mais reais e perversos.
Aqui, o capuz avermelhado, sua marca mais conhecida, é deixado de lado para que o rosto de um escravo-cadáver seja encoberto pelo sudário ensanguentado de sua morte.
Uma obra para reencontrar o medo perdido da lenda original e ver ressurgir um mito nacional de forma mais assustadora, em uma trama mórbida repleta de surpresas e reviravoltas.
Título: O Escravo de Capela
Autor (a): Marcos DeBrito
Editora: Faro Editorial
Número de páginas: 288


Nos últimos tempos a literatura e o folclore nacional tem voltado a se encontrar com regularidade. Das páginas lúdicas dos livros infantis aos contos de terror, passando pelas aventurescas tramas de fantasia juvenis, muitos autores tem buscado reconstruir uma identidade e/ou reinventar os mitos que conhecemos. Talvez um dos mitos mais presentes nessa nova leva literária seja o Saci...
Nas páginas deste livro somos transportados ao período colonial, final do século XVIII, onde a escravatura no Brasil ainda está no seu auge e abolicionismo não passava de "uma ideia tola" trazida da Europa. Na Fazenda Capela, negro não tinha outra obrigação além de trabalhar e nem opção a não ser aceitar o seu destino. E atormentar negros sempre fora um prazer para o sádico Antônio, primogênito do Sr. Batista, que desde a adolescência tornou-se o feitor da fazenda que um dia seria sua, já que o irmão mais novo não tinha o menor interesse nela. Diferente do irmão, Inácio estudara medicina em Coimbra e voltara apenas para uma visita a família, mas em pouco tempo deixa claro em pouco tempo seu desprezo pela segregação e maltrato à vida humana.
Em concomitância, uma nova leva de escravos chega para trabalhar na lavoura de cana, alguns deles recentemente trazidos de África e mal conseguem compreender o idioma de seus senhores. É exatamente isso que coloca Sabola Citiwala em confronto com Antônio: sem entender as ordens do seu feitor, o escravo não obedece as ordens e acaba sendo espancado e chicoteado, e após ser obrigado assistir a missa é levado para a senzala. Lá ele conhece o aleijado Akili, escravo mais antigo da Fazenda Capela e outra vítima da violência extrema do feitor. Determinado a fugir, Sabola irá unir forças ao preto velho para conseguir a desejada liberdade e nem a morte irá impedir que isso aconteça...
Se tem um ponto a ser destacado na estrutura da obra é a fluidez do texto e a forma como ele se torna envolvente. A narração em terceira pessoa nos põe a distancia necessária para acompanharmos tudo o que acontece de um ponto de vista além dos personagens e núcleos. Com uma linguagem simples - com exceção de um ou outro termo utilizado para trazer proximidade com o linguajar da época - e de fácil entendimento e absorção Marcos DeBrito simplesmente nos arrasta pelos acontecimentos da trama sem longas pausas ou rodeios desnecessários. A única exceção talvez esteja no penúltimo capítulo onde reside boa parte das explicações e quebram o ritmo.
A trama, embasada na pesquisa histórica e cultural, nos apresenta uma dura faceta da realidade vivida no período colonial onde os abusos dos senhores de escravos eram regra e a vida humana tinha dois pesos e duas medidas (não que hoje estejamos satisfatoriamente longe disso). Os Cunha Vasconcelos, exceto pelo jovem Inácio, são exemplos perfeitos do que de pior os endinheirados e amorais senhores de terra podiam ser. A postura de Antônio e seu pai por muitos momentos nos fazem questionar a existência de apenas um "monstro" na história tamanho o horror e sofrimento causados por eles. Cenas intensas que chocam, nos revoltam e trazem reflexão, principalmente pela verossimilhança como o real.
A história também vai além dos senhores cruéis, trabalhando mistérios entorno dos personagens, confrontos ideológicos, segredos obscuros, e até arrisca um romance. Num brado de revolta que urge por vingança, o autor não poupa a violência e brutalidade, para recriar o mito do negro de uma perna só como pede uma história de terror regada a sangue.
Apesar de todos os pontos positivos apontados, a minha experiência com a obra foi um tanto diferente das demais relatadas nas resenhas disponíveis em outros sites e blogs. Como se a minha sensibilidade estivesse anestesiada pela triste realidade violenta que nos cerca, ou por já esperar a postura cruel dos personagens conforme arquétipo e período histórico, as cenas que deveriam me chocar não tiveram o efeito esperado. Bem como foi fácil para mim juntar os detalhes da trama e antecipar os acontecimentos vindouros incluindo a conclusão, restando-me uma única surpresa - e não é exagero - dentre tantas planejadas para arrebatar o leitor durante a leitura. Não obstante, isto em momento algum desmerece a obra.
Sobre a edição da obra não há outra opção além de elogiar o trabalho da Faro Editorial. O zelo é visível desde o trabalho gráfico, passando por capa e miolo com acabamento vermelho nas bordas que dão um ar soturno a obra, até a diagramação e revisão. Uma visão bela e aterrorizante, sem sombra de dúvidas.
O Escravo de Capela é uma ótima pra quem busca uma obra de terror daquelas que escorrem sangue a cada virada de página, sem esquecer do clima de mistério que irá ajudar a te prender do inicio ao fim. Prepare-se para sentir-se chocado e impactado pelo que está por vir! Esteja avisado...
Cuidado com o Saci!


Bookverso: Tag dos 50% (Airechu 2017)

O post de hoje é uma TAG e claro um bom pretexto para falar de um dos meus assuntos favoritos. A TAG dos 50% é bem popular entre os blogs e canais literários e basicamente é um balanço de meio de ano para avaliarmos a quantas andam as nossas metas de leitura até agora e para relembrarmos alguns dos livros que marcaram o período seja de forma positiva ou nem tanto e compartilhar tudo isso com os amigos. Descobri que esta TAG foi criada pela Chami do canal Read Like Wild Fire e traduzida pelo Victor Almeida do canal Geek Freak, mas só decidi responder após ler as respostas da Melanie Young do site e podcast Agentes do L.I.V.R.O..
Quem já me conhece sabe que minha única meta é numérica, ou seja, defino uma quantidade mínima de livros que pretendo ler ao longo do ano e tento alcançá-la até o último dia de Dezembro que parece ainda bem distante, mas logo logo já vai estar bem aí. Segundo meu Perfil parcialmente atualizado no Skoob já li 26 até agora o que me coloca mais ou menos em dia com os 50 que almejo alcançar. Deixar a meta em aberto me ajuda a encaixar livros que aparecem do nada e criam em mim uma vontade instantânea e incontrolável de ler naquele momento, coisa que uma meta mais rígida com títulos específicos não me permitiria. Sem mais delongas e dito tudo isto, vamos às perguntas e respostas!


1. O melhor livro que você leu até agora, em 2017.

A TAG já começa pedindo para escolher entre os filhos que é para você ver que o negócio não é brincadeira! Li muitos livros excelentes e vou falar de muitos deles abaixo, mas um que virou favorito foi um que trata justamente desta paixão pela literatura e por estes objetos tão preciosos e que me são tão caros: Fahrenheit 451 de Ray Bradbury. Parece estranho escolher como favorito justamente um livro que fale sobre livros sendo queimados inadvertidamente, mas leiam e tirem suas próprias conclusões, esse é um dos poucos que eu tenho a petulância imprudente de taxar de obrigatório para quaisquer tipos de leitor! No Multiverso X, no Skoob, na Amazon

2. A melhor continuação que você leu até agora, em 2017.

Não li nenhuma continuação ainda neste ano, tenho dado preferências para os volumes únicos. A única série de romances iniciada mas ainda não terminada por aqui é A Saga de Artur do Bernard Cornwell. O Rei do Inverno que abre a trilogia foi uma leitura excelente, duma crueza e brutalidade que fiquei extasiado e talvez eu dê sequência com O Inimigo de Deus neste segundo semestre… (cobrem-me!) No Multiverso X, no Skoob, na Amazon

3. Algum lançamento do primeiro semestre que você ainda não leu, mas quer muito.

Eu sou bem desatento quanto a novos lançamentos e para não olhar listas e passar vontade de ter vou roubar e citar um mangá que já tenho e se encaixa nessa resposta. Quero muito ler The Ghost In The Shell, que dispensa muitas apresentações, é um clássico cyberpunk, e uma obra que se interpõe perfeitamente entre outras duas que aprecio muito neste subgênero da ficção científica: Neuromancer e Matrix. No Skoob, na Amazon

4. O livro mais aguardado do segundo semestre.

Roubando de novo, estou muito curioso para conferir a adaptação para quadrinhos pelos brasileiros Gabriel Bá e Fábio Moon de Como Falar com Garotas nas Festas, originalmente um conto de Neil Gaiman a ser lançado pela Cia das Letras em Agosto. E me lembrei que tá para sair um novo romance ambientado em Tormenta, A Jóia da Alma da amiga Karen Soarele. Depois da Trilogia da Tormenta do Leonel Caldela e das antologias de contos Crônicas da Tormenta, vai ser ótimo revisitar a Arton da literatura, já estava com saudades e promete!

5. O livro que mais te decepcionou esse ano.

Ms. Dalloway de Virginia Woolf foi minha leitura mais frustrante até agora pois não correspondeu às expectativas que eu tinha e embora curtinho se mostrou um livro maçante demais. Já percebi que não me dou bem com fluxos de consciência e esta é a característica mais marcante da obra e uma das técnicas de escrita mais elogiadas da autora. Eu confesso que li bocejando e terminei concluindo que se eu fosse a protagonista Clarissa Dalloway não teria saído eu mesma de casa para comprar flores naquela manhã porcaria nenhuma e teria me poupado de dar aquela festa pois nunca vi tantos convidados tão chatos reunidos como aqueles. No Skoob, na Amazon

6. O livro que mais te surpreendeu esse ano.

Fui com a guarda tão baixa na leitura de Os Meninos da Rua Paulo que terminei a leitura massacrado! Esperava uma história leve e inocente sobre infância e brincadeiras nas tardes após a escola no melhor estilo sessão da tarde, o livro é tudo isso sim, mas que desfecho de partir o coração é aquele, enfim é emocionante e surpreendente duma forma linda e triste e valeu demais a leitura desde clássico húngaro! No Multiverso X, no Skoob, na Amazon

7. Novo autor favorito (que lançou seu primeiro livro nesse semestre, ou que você conheceu recentemente).

O que mais se encaixa como um novo favorito é o Haruki Murakami. Li O Incolor Tsukuru Tazaki e seus Anos de Peregrinação e a antologia de contos Homens Sem Mulheres dele e fiquei fascinado com as características de sua prosa: bem dosada em referências orientais e ocidentais, fluida e direta, sucinta e desconcertante na medida certa com sua mescla indissociável de real e fantástico! Quero ler tudo dele e ele não tem pouca coisa publicada, estou perdido! No Multiverso X, no Skoob, na Amazon

8. A sua quedinha por personagem fictício mais recente.

Eu acho que me apaixonei pelos Amigos do ABC todos! Em Os Miseráveis de Victor Hugo eles são um grupo de amigos estudantes que se reúnem para discutir política e filosofia e quando veem que a soberania popular na República Francesa está ameaçada vão à luta na revolução de 1832, construindo barricadas e batalhando contra o exército francês numa das partes mais épicas e emocionantes deste romance. São eles Enjolras, Grantaire, Feuilly, Jehan Prouvaire, Combeferre, Courfeyrac, Bahorel, Bossuet e Joly e eu incluiria como membros honorários o pequeno Gavroche, Marius e Eponine. Mas se é para escolher apenas um fico com Enjolras, o líder nato, super carismático e comprometido de corpo e alma com a Pátria e os seus ideais, descrito pelo autor como um anjo de mármore no campo de batalha ele é adorável e eu não me incomodaria em servir de mobília na barricada em que ele lidera! No Skoob, na Amazon

9. Seu personagem favorito mais recente.

Kvothe, o protagonista de O Nome do Vento de Patrick Rothfuss. O livro demorou para engrenar, mas a habilidade narrativa do autor foi me cativando aos poucos e terminei de ler completamente fascinado! Kvothe é inteligente, destemido e aprende a se virar sozinho após ter a família brutalmente assassinada indo aprender magia na Universidade onde se torna pouco a pouco um herói lendário. Estou curioso para saber o que o fez abandonar a vida de heroísmo para se tornar um simples e recluso taverneiro. No Multiverso X, no Skoob, na Amazon

10. Um livro que te fez chorar nesse primeiro semestre.

Isso foi o que mais teve, mas nenhum foi tão extrator de lágrimas quanto Os Miseráveis de Victor Hugo. O autor faz da miséria oriunda do descaso e da injustiça social o seu tema central. Dói acompanhar o drama de Jean Valjean, de Fantine e de Gavroche tentando simplesmente sobreviver e nos sentimos incomodados por saber que eles são vítimas de tanta injustiça e descaso. É impossível não se comover com as situações vivenciada por eles que são tão marginalizados pela fome, pela justiça punitiva, pelo abandono, pela falsa moralidade, pelo machismo e muito mais. Mas para além de tudo isto o livro ainda nos brinda com muitas pequenas vitórias que se tornam ainda mais reluzentes por sabermos tudo o que eles passam para conquistá-las e aí mais lágrimas, mas agora de felicidade! Haja lencinhos! No Skoob, na Amazon

11. Um livro que te deixou feliz nesse primeiro semestre.

Guerra do Velho e seu humor característico me fizeram gargalhar muito durante a leitura. Imagine vovôs de 75 anos mas em corpinhos de 20 indo para a guerra literalmente e você terá uma breve ideia de como ele é, mas ele é muito mais do que isso e se provou uma leitura divertidíssima e ideal para descontrair do mar de bads literárias nos quais eu me jogo inescrupulosamente quase sempre. No Multiverso X, no Skoob, na Amazon

12. Melhor adaptação cinematográfica de um livro que você assistiu até agora, em 2017.

Não vi tantas adaptações literárias quanto gostaria, muito menos de filmes recentes. Admito, sou uma negação quando se trata da sétima arte, meus caros. Para não citar Os Miseráveis novamente (pelo amor de Deus vejam TUDO: filmes, musicais, peças...), vi as duas adaptações do Lolita de Vladimir Nabokov logo após terminar a leitura e a dirigida por Adrian Lyne de 1997 é muito fiel ao livro, tanto que é impossível não sentir o mesmo asco e aversão provocados pela situação de abuso da qual Dolores Haze é vítima. A adaptação de Stanley Kubrick sofreu vários cortes devido a censura da época e infelizmente romantiza a situação de abuso ao forçar um tipo de humor que não se encontra presente com o mesmo tom no romance original. No Multiverso X, no Skoob, na Amazon
13. Sua resenha favorita desse primeiro semestre (escrita ou em vídeo).

A de Lolita foi a mais trabalhosa e a mais difícil de escrever, mas eu gosto muito do que falei sobre Moby Dick lá em Janeiro. Nesta o mais difícil foi focar já que o livro aborda um leque muito amplo de assuntos. Da caça e do estudo sistemático das baleias até a história de Ishmael a bordo do Pequod comandado pelo Capitão Ahab cuja maior motivação é vingar-se de Moby Dick, a temível baleia branca que lhe arrancou uma perna, é um baita livro de aventura em alto mar e muito mais e que deixou saudades! No Multiverso X, no Skoob, na Amazon

14. O livro mais bonito que você comprou ou ganhou esse ano.

Por incrível que pareça não comprei tantos livros assim neste primeiro semestre de 2017, mas entre as novas aquisições o que mais se destaca pela beleza é Bambi de Felix Salten pela Cosac Naify. Vocês não tem ideia do que é segurar nas mãos um livro em capa dura com acabamento em tecido, gente! É uma delícia e só lamento que seja o único assim em toda a minha coleção! Mas visualmente, o verde e o preto minimalistas da capa e as ilustrações internas com silhuetas de animais pintadas sobre recortes de imagens da clássica animação da Disney misturadas a recortes de páginas de livros de botânica fazem dele um item lindo e de muito bom gosto! No Skoob, na Amazon

15. Quais livros você precisa ou quer muito ler até o final do ano?

Sinceramente, se der tempo, eu quero ler a coleção inteira, obviamente é impossível, então deixa eu listar alguns que urgem ser lidos o quanto antes:
O Temor do Sábio: estou louco para continuar acompanhando toda a saga de música e magia de Kvothe no segundo volume d’A Crônica do Matador de Rei. No Multiverso X, no Skoob, na Amazon
A Metamorfose: é tanta referência que eu ainda não sei como não li este, a mais recente foi num conto sensacional do Haruki Murakami, Samsa Apaixonado em Homens Sem Mulheres, no qual o autor japonês inverte a transformação presente na obra de Kafka narrando o que acontece quando uma barata acorda metamorfoseada em Gregor Samsa. No Skoob, na Amazon
O Corcunda de Notre Dame: a paixão por Victor Hugo foi tão forte que quanto antes eu ler toda a bibliografia do autor melhor, só espero não sofrer tanto com o romance de Quasímodo e Esmeralda aqui (tolo ingênuo) quanto com Os Miseráveis. No Skoob, na Amazon
Senhor das Moscas: é tão altamente recomendado e promete um mergulho tão profundo na natureza humana e sua corrupção pela maldade que ainda não sei como não comecei. No Skoob, na Amazon

E quanto a vocês? Como anda o progresso de suas leituras neste ano? Leram alguns dos que citei ou ficaram interessados neles através do post? Deixem-nos seus comentários e sintam-se a vontade para responder a TAG também!

Preview: Conheça a graphic novel A infância do Brasil

Ficha Básica
ISBN: 978-85- 67901-92- 3
Preço: R$ 49,90
Formato: 21×28 cm
96 páginas coloridas
Papel: Couché Fosco 115g
Capa: Supremo cartão 300g Prolan brilho
Categoria: Quadrinhos/ História

“A Infância no Brasil” pode ser adquirida na loja online da AVEC editora e na Amazon.

“A Infância do Brasil” é o mais recente lançamento em graphic novel da AVEC editora, que chega às principais livrarias brasileiras este mês. Concebida pelo premiado quadrinista José Aguiar, a obra lança seu olhar sobre a História brasileira. Porém, não pela perspectiva de grandes eventos, mas pela das pessoas comuns. Das crianças. Pelo viés da infância. O autor narra vários momentos de nossa História, com ênfase nas contradições, abusos, descasos, abandonos e outras situações que insistem em não ficar para trás.
“Metaforicamente, acredito que o Brasil está deixando sua infância para trás”, afirma Aguiar, “Entender como tratamos nossas crianças reais, desde o início de nossa história oficial, é uma forma de sensibilizar nossos leitores sobre o que aprendemos, o que mudou e o que permanece em mais de cinco séculos”. Para o autor, o livro é uma provocação. “Não trago respostas, mas o convite a questionamentos que, espero, sensibilizem as pessoas a ponto de refletirem o presente à partir do passado e assim, quem sabe, encontrarmos caminhos para um futuro realmente melhor”, confessa.

A História da Infância


A ideia da graphic novel, surgiu junto com com as preocupações do autor, enquanto pai. Ele comenta ter redescoberto a infância a partir do nascimento de seu primeiro filho: “O que me levou a questionar como foram as infâncias de meus pais, dos pais deles e assim por diante”. Seu próximo passo foi elaborar um projeto aprovado no edital do Mecenato Municipal de Curitiba que viabilizou a criação de uma webcomic lançada online entre 2015 e 2016.
“A Infância no Brasil” também contou com a consultoria da historiadora Claudia Regina Moreira para melhor retratar cada época em que se passam os capítulos. Ela também escreve textos complementares, contextualizado nossa sociedade desde o século XVI até o XXI “A partir dos temas que propus, levantou para mim leituras e contextualizou cada século em que se passa a trama, escrevi narrativas fictícias que pudessem dialogar com o presente”, revela o quadrinista.
O projeto também teve cores de Joel de Souza – que já havia trabalhado com Aguiar em outra HQ, Folheteen. Para o autor, a participação do colorista foi fundamental para dar a atmosfera exigida pela narrativa histórica.
 

Infância Perdida


A graphic novel trata de um arco formado de pequenos personagens que atravessam quase seis séculos de abusos, sexismo, intolerância, preconceito e violência não só física. “São os problemas que estão nos alicerces de nossa sociedade e que todos com um mínimo de sensibilidade gostariam de sanar”, explica Aguiar. O autor define sua obra não como uma história de grandes feitos, batalhas, tratados, políticos ou soldados. Mas como “uma HQ sobre pessoas que poderiam ter realmente existido ou que podem estar hoje na sua esquina. Ou quem sabe, ser você.”



Para saber mais sobre o Autor


José Aguiar recebeu diversos prêmios, como o Ângelo Agostini e Troféu HQMIX e vencedor do I Concurso Internacional de Quadrinhos do Senac-SP. Publicou em Portugal, Alemanha e na França. Fora das páginas, foi curador e dos premiados eventos culturais Cena HQ, e também da Gibicon – Convenção Internacional de Quadrinhos de Curitiba. Foi ilustrador indicado ao Prêmio Jabuti, pelo seu livro autobiográfico Reisetagebuch – Uma Viagem Ilustrada pela Alemanha. Suas tiras de humor Folheteen e Nada Com Coisa Alguma foram publicadas na revista cultural Curitiba Apresenta e no jornal Gazeta do Povo.

Mad Max na estrada da injustiça

O tempo é um juiz implacável. Aonde ele coloca suas mãos pesadas, nenhuma firula ou perfumaria é capaz de passar desapercebida ou ser ignorada. E esse texto tem como objetivo expor uma injustiça feita, da qual o tempo absolveu.
A trilogia Mad Max envelheceu mal. Dos três, o segundo ainda é insuperável. O primeiro filme, paradoxalmente inovador e datado devido sua narrativa, é capaz de ligar-se bem à sua sequência. Já o terceiro, tirando sua meia hora inicial – com a clássica cúpula do trovão, dois homens entram, um homem sai, Tina Turner no auge e Mel Gibson distribuindo tiros de espingarda de cano serrado – termina com Max rodeado de crianças aventureiras e dando pancadas na cabeça dos inimigos com uma frigideira. Para Didi Mocó aparecer com um extintor, assoprando pó branco em todo mundo, era um quase.
Terminar assim seria realmente muito triste, mas, em 2015, George Miller nos abençoou com Mad Max: FuryRoad. Um filme do qual Max é mero coadjuvante. Afinal, a estrada é da Furiosa. E no hype disso tudo, no mesmo ano, veio um jogo chamado Mad Max, apenas. É ele o injustiçado.

MUITO JOGO PRA POUCO TEMPO


Analisar um jogo, escrever e publicar um texto sobre nem sempre é uma tarefa simples. E quando se trata de um game de mundo aberto, o processo toma um rumo ainda mais corrido. O deadline mordendo os calcanhares e na frente do redator um game longo que passa-se em um mundo árido e vazio. Onde a sociedade conhecida não passa de uma lembrança e o que restou delaestá entregue à selvageria. 
Todos os elementos que tornaram Mad Max um ícone da cultura pop estão no jogo. Ele utiliza a estética do último filme de George Miller, considerado um dos melhores filmes de ação já feitos. O gameplay pega emprestado o consagrado sistema de combate da série Batman: Arkham. E misturando tudo isso, as perseguições e combates de carros no deserto são tão empolgantes quanto em Fury Road.

Um jogo com todos esses pontos relegado ao esquecimento dos jogos medianos é algo que é confuso de entender. Por mais que o prazo acaba ditando tudo no final, não ter a chance de jogar Mad Max com calma, aproveitando cada aspecto do mundinho que ele proporciona, acabou prejudicando o game desenvolvido pela Avalanche Studios.
A triforce gráficos, gameplay e história está muito bem alinhada, de forma bem semelhante aos melhores jogos do gênero. No entanto, o lançamento junto ao aguardado Metal Gear Solid V: The PhantomPain foi um rival grande demais para encarar. Embora Mad Max tenha muitas qualidades, vencer Kojima é impossível.
Vale ressaltar, no entanto, que algumas críticas que o jogo sofreu não são infundadas, como a repetição, por exemplo. Mesmo que esse elemento esteja naturalmente presente no gênero de jogos de mundo aberto, jogar horas seguidas de Mad Max pode cansar.
E é justamente nesse ponto que se atola na areia movediça do backlog. A pressa em terminar um bom jogo é o pior vilão dele. Dessa maneira, qualquer jogo se torna insuportavelmente longo.Como o próprio MGS V: The PhantomPain, que sofreu com a mesma crítica, mas brilha com 93 no Metacritic. Vai entender.

UMA HISTÓRIA AO SOM DO V8


Mad Max foi lançado naquela época infeliz onde as desenvolvedoras queriam atender aos donos dos consoles da nova geração mas ainda abraçar à grande base instalada da geração passada. Nisso, um lado acaba sofrendo e no fim os donos de PlayStation 3 e Xbox 360, acabaram sem uma versão do jogo. 
Manter o mesmo nível de qualidade seria impossível, tanto nos gráficos quanto na narrativa, no qual, toda animação é feita com cenas in-game. Ainda assim, um ponto onde houve uma dose nociva de má vontade nos reviews do jogo é sobre a sua história. Mesmo tratando-se de um prelúdio donovo filme de George Miller e seguindo os mesmos estilos narrativos e estéticos – a abertura do jogo é idêntica a do filme –, o enredo, porém, foi considerado ruim ou fraco.
É justamente o contrário. Compramos as razões do Max e dos NPCs e de como as histórias vão se entrelaçando. Não é forçado, nem gratuito, um líder local ajudar um andarilho desesperado. Acordos são feitos e a história se desenrola.Algo que se destaca bastante e ajuda a construir esses laços são os detalhes que montam o background do cenário. Cartas, fotos e ruínas – a maioria com comentários do próprio Max – remontam o mundo anterior e descrevem o início do caos.
Corpos mutilados, empalados e carbonizados estão espalhados pelos cantos da Wasteland. Contêineres que servem tanto de casa como de cemitério e/ou despensa são encontrados com alguma facilidade. A morte explícita é lugar comum no jogo, bem como nos dois primeiros filmes. Isso me faz pensar naquele clima maluco PG-13 do terceiro filme.
Quanto a trilha sonorado game, propositalmente, fica a cargo do rugido dos motores dos carros, do estampido da espingarda e do choque do aço se batendo numa perseguição. A imersão que esses detalhes entregam é bem gratificante. O combate também empolga, o que não é difícil com o estilo empregado. 
Entretanto, Mad Max possui alguns problemas.

NÃO PRECISAMOS DE OUTRO NÍVEL


Mad Max não é um jogo difícil, e se o jogador fizer as missões secundárias e gostar de explorar o cenário, possivelmente, na metade do jogo já estará no nível máximo. O que não significa que o jogador não deverá tomar cuidado, principalmente durante os combates, mas nada que tire a paciência ou acabe frustrando.
Quedas de framerate ocorrem nas cenas de maior intensidade, principalmente durante as tempestades, porém não atrapalham o jogo. A atualização resolveu boa parte desse problema.
Com o apertar de um botão, Max dispara a espingarda. Isso pode ser incomodo no início do jogo, onde tudo passa a impressão de escassez, tanto de munição quanto dos recursos essenciais para seguir adiante, como gasolina e água. Mas todos esses itens são simples de se encontrar pelo cenário e quando retorna-se aos fortes aliados – caso esses produzem esse recurso – o cantil e o cinto de balas são reabastecidos.

Se bem que nos filmes, e até mesmo em Fury Road, não falta gasolina explodindo e tiros sendo disparados. O filme e jogo de ação não seriam os mesmos se as armas fossem apenas porretes – apesar de constarem aos montes no game.
Longe de lançar Mad Max em um poço de piche como algo sem serventia, esses defeitos podem incomodar, mas, de certa forma, reforça a ideia de que aguardar não seja uma má ideia, no fim. Atualmente, o game está em promoção na PSN BR e por pouco mais que uma pizza família com Coca-cola, é possível desbravar as Wastelands, sendo guiado pela força de um motor V8, jogando e se divertindo com uma boa história. Vale muito a pena.


Guerra do Velho

A humanidade finalmente chegou à era das viagens interestelares. A má notícia é que há poucos planetas habitáveis disponíveis – e muitos alienígenas lutando por eles. Para proteger a Terra e também conquistar novos territórios, a raça humana conta com tecnologias inovadoras e com a habilidade e a disposição das FCD - Forças Coloniais de Defesa. Mas, para se alistar, é necessário ter mais de 75 anos. John Perry vai aceitar esse desafio, e ele tem apenas uma vaga ideia do que pode esperar.
"Guerra do Velho" é frequentemente comparado a um dos maiores clássicos da ficção científica: Tropas Estrelares, de Robert Heinlein. O próprio Scalzi já confirmou que Heinlein é uma das suas maiores influências e que a obra foi escrita seguindo os princípios que ele acredita serem próprios da escrita do autor que tanto admira. Scalzi é um dos principais nomes da ficção científica contemporânea. Ganhador dos prêmios Hugo e Locus, o autor conquistou público, crítica e mercado. Em fevereiro de 2015, fechou um contrato com a editora Tor Books de cerca de $3,4 milhões, para publicar 13 livros nos próximos 10 anos. O canal SyFy está produzindo uma série de TV – chamada Ghost Brigades – como adaptação do livro, e a Paramount já comprou os direitos para levar a história para as telas do cinema.
Título: Guerra do Velho
Título Original: Old Man's War
Editora: Aleph
Autor: John Scalzi
Tradução: Pete Rissatti
Ano: 2016 / Páginas: 368


Fiquei muito curioso com a proposta de Guerra do Velho tão logo o livro teve a sua publicação no Brasil anunciada pela editora Aleph em 2016. Curiosidade esta que só aumentou com resenha muito positivas em diversos blogs e canais literários que acompanho e também com a recomendação empolgada do Ace Barros desta obra em nosso podcast de número 14 aqui no Multiverso X.
Guerra do Velho é o romance de estreia de John Scalzi e fez um enorme sucesso em seu país de origem sendo agraciado com diversos prêmios literários e logo tendo os direitos de adaptação vendidos. A frase usada como slogan para vendê-lo é uma daquelas que já diz tudo e atiça instantaneamente a nossa curiosidade por subverter todo o nosso senso comum sobre guerras, soldados e velhos. “No meu aniversário de 75 anos fiz duas coisas: visitei o túmulo da minha esposa, depois entrei para o exército.” diz John Perry logo na primeira página do livro e é impossível não querer saber todos os "comos" implícitos nisto. Então o que inicialmente pode nos parecer um absurdo vai sendo desenvolvido de forma eletrizante nas páginas seguintes deste romance.
Num futuro próximo a humanidade finalmente dominou a tecnologia para que as viagens espaciais se tornassem algo corriqueiro e possibilitassem a colonização e a exploração de outros planetas. No entanto dado os perigos do espaço e os conflitos com outras raças alienígenas foi necessário criar também um exército independente para garantir a segurança e a sobrevivência dos colonos terráqueos nestes novos planetas, as Forças Coloniais de Defesa ou FCD.
É nas FCD que John Perry o nosso protagonista e aniversariante de 75 anos se alista. Como um terráqueo, John tem uma noção muito vaga das missões que o aguardam e sabe pouco do que acontecerá com ele quando estiver a serviço. Ele imagina que será submetido a um processo extraordinário de rejuvenescimento para que seu corpo possa se tornar apto a combater numa guerra novamente, mas as FCD mantém total sigilo sobre os procedimentos e técnicas que aplica em seus soldados e tudo o que se sabe sobre isto na Terra é mera especulação. Por um motivo misterioso, em suas fileiras só são aceitos recrutas com mais de 75 anos e após se alistar nas FCD o terráqueo idoso é oficialmente dado como morto, mas só será colocado a par de toda a situação acerca do seu futuro quando já estiver no espaço. John não teme essa incerteza, pensa que não tem mais nada a perder e já tomou sua decisão. Assim, com um breve suspense sucedido de muita ação o livro conta o que aconteceu a John nos anos que em que serviu às FCD e acredite, não foi pouca coisa!
A história é totalmente narrada pelo protagonista e apresenta uma excelente fluidez em capítulos curtos ao longo de três partes. A primeira cria uma expectativa enorme em como será o tratamento para tornar os idosos hábeis para os combates de guerra que os esperam, as últimas já os mostram em treinamento e em missão e são muito bem dosadas em adrenalina, velocidade e desenvolvimento de mundo e bom humor. Também vale destacar o projeto gráfico do livro e o cuidado da Aleph com a tradução, design e revisão, absolutamente impecáveis.
Senti uma certa dificuldade em criar empatia com o protagonista sobretudo nas cenas iniciais, mas com o tempo fui me apegando ao seu jeito teimoso e um tanto bonachão e ganhando familiaridade ao ponto de ser impossível não torcer por ele a cada missão complicada para a qual era designado. Mesmo já tendo uma idade considerável no início do livro, John Perry descobre que ainda há muito pelo que viver, nem que isso signifique nunca mais voltar à Terra ou ter que explodir mais cabeças de alienígenas por dia do seria capaz de contar de uma vez.
A rapidez na leitura é favorecida por uma dose mínima de descrições e contextualização. O autor parece se valer daquilo que já conhecemos da própria cultura pop para nos poupar de detalhes tediosos que apenas tornariam o texto truncado. Viagens espaciais, implantes biológicos, supercomputadores, armas destrutivas e raças alienígenas extravagantes são descritos de forma breve, mas plausível compondo um cenário típico de ficção científica de viagens espaciais e de guerra. Senti falta de mais ciência no livro, mas dada a condição de soldado do narrador fiquei satisfeito com o seu modo mais objetivo e prático de nos contar sua história sem se ater tanto aos detalhes e focando mais nos efeitos gerados pela tecnologia e ciência envolvidos.
O livro também nos leva a pensar sobre a velhice, dificilmente pensamos nela enquanto somos jovens ou enquanto estamos muito ocupados tentando ser adultos bem sucedidos. Os anseios, as dúvidas e as reflexões dessa fase da vida trazem contornos muito humanos e particulares ao protagonista e aos seus aliados nas FCD. Enxergar o mundo com os olhos de quem já viveu de tudo e agora se encontra praticamente só no mundo, já seria por si só fascinante, mas experimente transformar uma pessoa destas num soldado plenamente capaz com as missões mais perigosas e alucinantes à frente e vemos nossas perspectivas se alargarem num horizonte infinito de possibilidades.
A expansão humana e a colonização do espaço bem como suas implicações são outros temas que inevitavelmente nos levam à reflexão. No livro, a guerra contra outras raças alienígenas é sempre preterida à diplomacia quando estas raças se mostram minimamente hostis a nós, ainda que sejam tão ou mais inteligentes e tecnologicamente mais avançadas. A guerra é o caminho mais eficiente para garantir nossos objetivos e segurança nas colônias e pensando bem isso é bem lamentável sobretudo quando pessoalmente preferimos adotar uma posição pacífica.
Guerra do Velho foi uma leitura leve e extremamente divertida, com muita ação e com um dos argumentos mais inusitados dos últimos tempos sem pecar em crítica e em reflexões mais profundas. Ao término fica uma gostosa sensação de quero mais! É um livro que funciona muito bem como um romance de entrada no gênero de ficção científica, mas agrada também a leitores mais exigentes pelo ineditismo de algumas das situações com as quais somos brindados em sua trama sobretudo a velhice e o militarismo. É ideal para uma leitura descompromissada, mas que ainda assim vai te surpreender com a sua abordagem inusitada e explosiva para a exploração espacial, além de certamente lhe proporcionar umas boas horas de diversão de muita qualidade!