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O Retrato de Dorian Gray


Escrito em 1890, este romance de Oscar Wilde talvez seja até mais atual agora do que em seu lançamento. O culto à aparência física e à eterna juventude deixou de ocupar apenas alguns estetas e aristocratas, como ocorria no fim do século XIX, para se transformar em fenômeno de massa. No esplendor da juventude, Dorian Gray posa para um quadro, e lamenta que, com o passar dos anos, perderá a beleza ali retratada. Ou será que não? Um pacto diabólico está em curso.
Célebre em sua época pelo apuro das roupas, pelo brilho das frases e pelo escândalo em torno de sua homossexualidade, Oscar Wilde (1854-1900) reúne nesta fábula, simples e profunda, aspectos contrastantes de sua personalidade como literato e pensador. Contestando a rigidez vitoriana e a feiura da sociedade industrial, O retrato de Dorian Gray também põe em questão as ideias estetizantes e refinadas que seu autor sabia desenvolver como ninguém. - Marcelo Coelho Colunista da Folha
A Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura traz ao público 28 ilustres autores da literatura mundial cujos clássicos marcaram gerações de leitores. Entre eles estão Machado de Assis, Fernando Pessoa, Eça de Queirós, Oscar Wilde, Virginia Woolf, Joseph Conrad, Tolstói e outros renomados autores.
Título: O Retrato de Dorian Gray
Título Original: The Picture of Dorian Grey
Coleção: Folha Grandes Nomes da Literatura #06
Editora: Folha de S. Paulo
Autor: Oscar Wilde
Tradução: Jorio Dauster
Número de páginas: 176


Imagino que não exista pessoa que não tenha ainda se deparado ao menos uma vez na vida com uma citação de Oscar Wilde, todas elas quase sempre marcadas por uma fina ironia e um delicioso cinismo. Mas claro que Wilde é muito mais do que o autor de frases e aforismos geniais. Poeta, contista, dramaturgo e romancista, este escritor versátil é considerado um dos mais importantes autores ingleses do século XIX, e expoente da transição do conservadorismo vitoriano para a vanguarda modernista. Seu único romance e também a sua obra prima, O Retrato de Dorian Gray é um clássico da literatura universal vindo a influenciar posteriormente diversos outros autores, entre eles nomes como Borges, Fitzgerald e Joyce, e ainda hoje conserva-se atual em muitas das suas premissas.
O romance conta a história de Dorian Gray, um jovem aristocrata de extraordinária beleza, que posa para um quadro de corpo inteiro feito por Basil Hallward, um pintor talentoso que acredita ter descoberto na beleza do rapaz uma nova modalidade artística, ao transportá-la para a sua arte por meio de seu talento e paixão. No ateliê de Basil, Dorian conhece Henry Wotton cuja filosofia de vida hedonista logo o deixa fascinado com sua figura. Henry Wotton crê que a busca constante por diferentes tipos prazer é a única coisa que faz a vida ter sentido e realmente valer a pena. Wotton é um bon vivant, um apreciador de tudo que é belo e prazeroso e busca desfrutar ao máximo sua vida. Influenciado pelas palavras de Henry e após contemplar sua própria beleza e juventude no quadro pintado por Basil, Dorian lamenta que um dia tudo terá passado, manifestando inveja e ciúmes do quadro que, ao contrário dele, se manterá para sempre jovem e belo. Num arroubo impensado ele manifesta o desejo de vender sua própria alma para inverter esta situação, de modo que o quadro, e não ele, envelheça. Por uma razão inexplicada o desejo de Dorian é atendido e logo ele percebe que não importa quais pecados e depravações cometa, a sua beleza se conserva intacta e intocada, ao passo que o quadro aos poucos vai se tornando uma coisa de horror abominável, acumulando em sua tela toda a velhice e as marcas dos atos mais vis de Dorian.
A trama se concentra principalmente em torno destes três personagens e a sua complexidade maior está muito mais nos diálogos profundos e nas relações que eles estabelecem. Os elementos fantásticos e sobrenaturais do romance são artifícios narrativos para elaboradas discussão de temas universais tais como a beleza, a estética artística, a vaidade, a moral e a sexualidade. No início Basil é o amigo em comum de Dorian e Henry, mas assim que ambos se conhecem no ateliê do artista, são atraídos de um modo arrebatador e passam a se encontrar em todos os eventos sociais que frequentam. Basil em determinado momento é deixado de lado, mas continua admirando e se preocupando verdadeiramente com Dorian. Henry Wotton poderia ser considerado o ardiloso grande vilão da trama, pois além de ter afastado Dorian e Basil um do outro, ainda é o principal responsável pela mudança sofrida por Dorian ao longo do livro. De um jovem frágil e de mente inocente, dono duma beleza indiscutível mas mal aproveitada, Wotton, de certa forma, transforma Dorian num homem versado nas mais diversas artes, mas egoísta, adepto de comportamentos dos mais amorais e depravados em nome do hedonismo, capaz de manipular, mentir e talvez até de matar quem quer que seja se isso lhe for conveniente.
Pela polêmica e escândalo causados na época de sua publicação original, a obra sofreu censura dos editores e foi posteriormente modificada pelo próprio Wilde e assim, existem ao todo três versões da mesma. A edição que li integra como sexto volume a Coleção Folha Grandes Nomes da Literatura e traz o manuscrito original, sem censura e alterações posteriores, que permaneceu inédito na forma de datiloscritos por mais de 120 anos. Apesar de contar com a mesma tradução de Jorio Dauster, a edição da Folha não traz os mesmos conteúdos extras da edição da Biblioteca Azul, o que é uma pena! A versão mais difundida da obra é a modificada pelo próprio Oscar Wilde, publicada em 1891 na qual ele amenizou o tom polêmico e alongou a narrativa que passou de treze para vinte capítulos.
As sensações que este livro me causaram variaram enormemente, desde o fascínio com a descrição feita da beleza de Dorian transposta por Basil para o quadro, até o choque ao me defrontar com a corrupção da alma humana desencadeada com coisas tão simples que vão duma conversa, à contemplação de uma quadro ou a leitura de um livro. Pelo tom mais implícito do que explícito adotado pelo autor para abordar as depravações de Dorian, apenas no final foi que realmente percebi o quão corrompido ele se tornou ao virar as costas para a única pessoa que realmente se importou com ele. Apesar de toda a polêmica que o envolve, ao menos com o olhar de hoje, o livro está longe de chocar pelas simples insinuações de relacionamentos homoafetivos vividos pelos seus protagonistas, o que naquela época foi considerado um escândalo. Me pergunto se aqueles críticos se atentaram para aquilo que o livro realmente denuncia como uma obscenidade, a citar a amoralidade e a hipocrisia da aristocracia vitoriana ao exaltar como seus maiores valores o puritanismo e a intolerância. É tão mais fácil enxergar a decadência no outro (ou num quadro), enquanto ignoramos o fato de que ela está na verdade em nós mesmos...
O Retrato de Dorian Gray é um clássico e por si só já dispensa recomendações. A prosa de Wilde embora seja sofisticada, rica em detalhes de época, em metáforas e questionamentos de cunho filosófico, consegue manter o leitor preso aos eventos que narra e curioso quanto as atitudes de seus personagens e ao desfecho que estes terão. É impossível não sair um pouco bagunçado internamente após a sua leitura. Este é o tipo de livro que eu recomendaria a todos indistintamente e com a total convicção de ele vá agradar uma variada gama de leitores. Segundo o próprio Wilde, "A vida é apenas um tempinho horroroso cheio de momentos deliciosos." e lê-lo com certeza é destes momentos deliciosos!


Review: Matryoshka





Algumas Matryoshkas raras estão sendo trocadas por colecionadores de antiguidades. Todos tentam colecionar um conjunto completo ou pelo menos bonecas do mesmo tamanho. Quem terá a coleção mais valiosa ao fim da disputa?




Titulo: Matryoshka
Produtora: White Goblin - Funbox Jogos
Criação: Sergio Halaban
Tipo: Jogo de Tabuleiro
Mecânicas: Coleção de Componentes - Negociação


Nunca na história desse país o mercado de jogos de tabuleiro se desenvolveu tanto quanto agora! Talvez você ainda não saiba disso ou não tenha reparado no assunto, mas nos últimos anos o mercado brasileiro tem recebido diversos títulos e novas empresas e lojas surgem a cada mês. Quem gosta de reunir a família e/ou os amigos para jogar nunca teve tanta opção boa, não só de jogos estrangeiros, mas também de títulos 100% nacionais. Esse é o caso de Matryoshka, jogo premiado game designer brasileiro Sergio Halaban e publicado pela editora paulista Funbox Jogos!
Para quem não sabe Matryoshka é um brinquedo russo, um conjunto de bonecas, geralmente feitas de madeira, colocadas umas dentro das outras em ordem crescente. A menor (a única que não é oca) dentro de uma maior, dentro de outra maior, e assim vai até chegar a maior delas na camada externa. Mas do se trata o jogo?
Matryoshka é um card game para 3 a 5 jogadores, bem simples, em que cada pessoa será um colecionador de antiguidades na busca das Matryoshkas mais raras do mundo, compostas de sete bonecas cada. As bonecas foram espalhadas durante anos e agora os colecionadores marcaram uma reunião para que através de trocas, completem sua coleção.
Durante a quatro rodadas do jogo, progressivamente, os jogadores vão expondo sua coleção - 2 cartas inicialmente, 4 cartas ao fim da 1ª rodada, 6 cartas ao fim da 2ª, 8 cartas ao fim da 3ª, e 13 cartas ao fim da 4ª encerrando a partida - para que seus adversários saibam o que você está procurando e possam fazer a oferta mais interessante..
A cada rodada os jogadores recebem duas novas cartas do monte para complementar as seis da mão inicial e poderão também efetuar uma troca na forma de um leilão. Nessa hora o jogador da vez irá mostrar uma carta da mão, os outros jogadores podem fazer ofertas às escondidas e se a oferta for agradável, você poderá trocar a sua carta com a do outro jogador.
O jogo termina após quatro rodadas. Cada jogador terá 13 cartas em exibição à sua frente (e terá uma carta em sua mão). Os jogadores ganham pontos pelos conjuntos de cartas em exibição. Os pontos são recebidos por colunas com ao menos duas cartas (ex: quaisquer duas cartas com Matryoshkas de valor 5) e por linhas com conjuntos de pelo menos duas cartas em sequência. Além disso, conjuntos de 5, 6 ou 7 cartas da mesma cor recebem um bônus de 1, 2 ou 3 pontos respectivamente. O jogador com o maior número pontos no total vence o jogo.
A arte do jogo é com certeza um de seus maiores atrativos, não há como resistir a beleza das pequenas bonecas. Mas não deixe se enganar por essa beleza: apesar de simples, Matryoshka é um jogo bastante inteligente e que permite boas doses de estratégia. As trocas e a interação permitem com que o jogo seja dinâmico e competição seja elemento presente a todo momento. Não basta apenas concentrar-se no seu jogo, as vezes é preciso travar o jogo do adversário.
Para quem quiser saber mais sobre o jogo e como ele funciona na prática, o canal: First Player (vídeo no final da postagem) preparou um preview detalhado com informação sobre as mecânicas do jogo, como elas funcionam, e muito mais.
Ao fim, digo sem a menor sombra de dúvidas que Matryoshka é um excelente jogo e vai agradar até mesmo aqueles não acostumados com jogos modernos; sua simplicidade e os detalhes didáticos utilizados no design das cartas o tornam fácil ensinar, e com duas rodadas é possível sair fazendo estratégias para vencer e barrar o avanço dos adversários. E fala sério: quem não gosta de competir com o coleguinha? Um jogo barato, de qualidade acima da média, com uma arte lindíssima e muito divertido, que prova que o mercado nacional tem muitas pérolas para mostrar. Indicação certa!

Financiamento Coletivo: Contos de Taverna


Titulo: Contos de Taverna
Produtora: Clube de Autores de Fantasia
Criação: Jana Vianchi
Autores: Renan Santos, Rodrigo van Kampen, Ariel Ayres, Mogg Mester, Mark Lawrence, Jana P. Bianchi, J. M. Beraldo, L. A. Nuñes, Lauro Kociuba, Ana Cristina Rodrigues.
Tipo: Literatura

SITE DA CAMPANHA


Sê bem-vindo à nossa Taverna! Escolhe uma cadeira e senta. Temos muitas histórias para contar.




Portas se abrem e se fecham. Pessoas vão e vêm. As histórias contadas sobre uma mesa de taverna... essas ficam. Os narradores saem de fininho, mas as palavras ditas ecoam, caminham, se transformam.
Taverna é lugar de heróis e fios de espada. De dragões e versos mágicos. E, também, das mais extraordinárias memórias contadas desde que foi derramado o último copo de hidromel. Reunindo bardos consagrados e promissores aprendizes, esta antologia nos leva aos confins da imaginação, mostrando que ogros e lobos, minotauros e sereias, mulheres e homens: todos compõem uma deliciosa receita para contos épicos.
Se você é fã da fantasia medieval, apoie este projeto e delicie-se com aventuras de personagens únicos e cenários fantásticos em cada um dos dez contos que integram a coletânea. São histórias inéditas, resgatadas do fundo da garrafa e transcritas em um tomo. Ou, simplesmente, Contos de Taverna.


O livro será impresso no formato de 15,5 x 23cm, cada um com cerca de 240 páginas de papel pólen 80g. Cada conto trará uma iluminura monocromática, mas a capa será colorida, feita com couro sintético flexível com acabamento de BOPP fosco e orelhas. Caso a arrecadação ultrapasse a meta original, o dinheiro será investido em melhorias na qualidade da impressão do livro, inclusive dando-o uma nova capa.
O prefácio da obra é de Fábio M. Barreto e a coletânea agrupa dez contos de trovadores convidados pela taverneira: "A Canção das Sereias" (Renan Santos), "Encantadores de Dragão" (Rodrigo van Kampen), "Heróis" (Ariel Ayres), "Osbarg" (Mogg Mester), "Quick" (Mark Lawrence), "Redenção" (Jana P. Bianchi), "Segunda Chance" (J. M. Beraldo), "Sobárvore" (L. A. Nuñes), "Sombras, Espelhos e Lâminas" (Lauro Kociuba) e "A Última Corrida de Minotauros em Salvaterra" (Ana Cristina Rodrigues).

Para quem não conhece (ou não acompanha as postagens que fazemos sobre FCs), o funcionamento de um financiamento coletivo é simples: os objetivos são esclarecidos na página da campanha e as recompensas são apresentadas, o apoiador escolhe entre as possibilidades com quanto irá contribuir já sabendo qual será a sua recompensa. Quando a meta não é alcançada o dinheiro é devolvido, e em algumas campanhas quando o valor estipulado é ultrapassado metas extras bonificam aqueles que contribuíram (não necessariamente todos, isso varia de recompensa para recompensa e de campanha para campanha).
Para participar do financiamento de Contos de Taverna, basta escolher um dos pacotes de recompensas disponíveis, com valores entre R$10 e R$ 800, que dão direito a recompensas variadas como agradecimentos, ebook, livro impresso, marcador de couro, placa personalizada, ecobag, conto exclusivo, brindes especiais até sua marca estampada na capa como patrocinador. Basta escolher o apoio que contemple aquilo que seja do seu interesse e caiba no seu bolso.
A campanha ficará disponível por mais 47 dias no Catarse (a contar de 16/09) e tem entrega de recompensas prevista para Janeiro de 2017. Agora que você já está por dentro de tudo confira a página do projeto no Catarse (https://www.catarse.me/pt/contosdetaverna) e descubra mais informações sobre o livro: quais exatamente são as recompensas, detalhes sobre como seu dinheiro será investido, artes, etc.
Apoie, divulgue, e ajude os Contos de Taverna a se espalharem pelos grandes salões de todo o mundo!

Deuses Americanos

Deuses Americanos, o melhor e mais ambicioso romance de Neil Gaiman, é uma viagem assustadora, estranha e alucinógena que envolve um profundo exame do espírito americano. Gaiman ataca desde a violenta investida da era da informação até o significado da morte, mantendo seu estilo picante de enredo e a narrativa perspicaz adotados desde Sandman.
Neil Gaiman oferece uma perspectiva de fora para dentro - e, ao mesmo tempo, de dentro para fora - da alma e espiritualidade dos Estados Unidos e do povo americano: suas obsessões por dinheiro e poder, a miscigenada herança religiosa e suas consequências sociais, e as decisões milenares que eles enfrentam sobre o que é real e o que não é.
Título: Deuses Americanos
Título Original: American Gods
Editora: Conrad
Autor: Neil Gaiman
Tradução: Ana Ban
Número de páginas: 448 / Ano: 2011 (3ª edição)

Apesar de ter sido um dos primeiros livros do Neil Gaiman que comprei, pouco após entrar em contato com algumas de suas outras obras, Deuses Americanos sempre me soou um tanto intimidador e esperei muito para finalmente lê-lo. Frequentemente citado como obra prima do autor e descrito como uma profusão de referencias mitológicas, sempre achei que seria um livro ligeiramente desafiador, adulto e denso. Ele é um pouco disto tudo sim, mas confesso que esperava bem mais dele.
Deuses Americanos é o quarto romance de Neil Gaiman e mistura fantasia urbana com vertentes de mitologias antigas e modernas, bebendo de muitos dos temas e conceitos já utilizados pelo autor em suas obras anteriores, sobretudo Sandman. A trama é centralizada na figura de Shadow, que está prestes a sair da prisão após ter cumprido uma pena de três anos. Com a morte de sua esposa num trágico acidente de carro, ele é liberado uma semana antes do esperado e a partir daí sua vida começa a sofrer uma série de estranhos infortúnios que vão desde descobrir que ela o traía com seu melhor amigo, quanto a de que não possui mais um lar, nem uma vaga de emprego com a qual contava para refazer a sua vida.
O palco da história são os Estados Unidos. Gaiman explora a relação desta nação com os muitos deuses trazidos e criados em seu território. Há tanto aqueles que chegaram na bagagem de crenças dos primeiros emigrantes vindos do velho continente e que viam na América uma terra de novas oportunidades, quanto aqueles surgidos a partir do desenvolvimento econômico, tecnológico e social da nação norte-americana ao longo da sua História. Deuses de panteões clássicos, gregos, nórdicos, celtas, dividem espaço com os novatos oriundos da cultura de massa, da mídia, das drogas e da informática.
Um conceito bastante usado quando se quer explicar de onde vêm o poder dos deuses é o de que ele deriva e depende diretamente da fé daqueles que neles acreditam, oram e por eles se sacrificam. Assim, quanto mais fiés um deus tiver, maior será o seu poder e esta é uma das premissas básicas do universo de Deuses Americanos. O dinamismo e as particularidades da sua formação e história, fizeram surgir nos EUA incontáveis deuses que representam os mais diversos aspectos. Como a fé é um recurso limitado, o conflito entre os deuses modernos e os antigos, cujo poder diminui cada vez mais e precisam se virar com migalhas do que um dia foram, é inevitável.
É neste contexto que Shadow e nós conhecemos Wednesday, um destes velhos deuses que está reunindo um exército de aliados para uma guerra épica eminente entre estas duas facções divinas. Ele contrata Shadow como seu guarda-costas particular e a priori sua função é auxiliar Wednesday tanto nas viagens que ele está empreendendo para encontrar os velhos deuses quanto nas abordagens que terá de fazer para convencê-los a ficar do seu lado nesta disputa.
Gaiman tem uma habilidade incrível para criar personagens fascinantes! Além de Shadow e Wednesday, destaco Laura Moon, a namorada de Shadow que descobrimos estar morta logo nas primeiras páginas do livro, mas que por algum motivo se recusa a permanecer assim e acaba tendo um papel decisivo na trama, além de mostrar facetas para mim até então inéditas do além vida. Entre os Deuses, destaco os do panteão egípcio, os senhores Ibis e Jaquel donos de um negócio funerário, Easter, a deusa germânica da madrugada (mas eu sempre pensei que fosse da Páscoa) residente em São Francisco e Bilquis uma deusa cujo apetite insaciável me deixou perplexo! Entre os novos deuses, o garoto gordinho da informática e Media, a deusa das mídias, sobretudo a televisão são os exemplos mais proeminentes. Os humanos comuns também tem seus momentos de brilho! Achei fascinantes os típicos habitantes da pequena Lakeside, onde Shadow permaneceu escondido por algum tempo durante o inverno.
Se há algum ponto negativo, ouso dizer que seja a falta de urgência na trama. Embora sempre tenha algo interessante acontecendo, não há muita linearidade entre os eventos e a trama principal é conduzida de forma vagarosa. A inserção de flashbacks com histórias da chegada dos deuses antigos ao continente americano, e de histórias paralelas de outros deuses no presente, apesar de serem muito interessantes e trazerem alguns dos conceitos que o autor busca trabalhar no arco principal, quebram o ritmo da narrativa. Penso se não seriam melhor apresentados como contos avulsos ao invés de partes integrantes dos capítulos principais. No mais não é necessário entender muito de mitologia para avançar na leitura, embora o livro seja repleto de referências a elas, que o leitor mais atento ou curioso ficará fascinado de descobrir e pesquisar mais, no geral tudo que é preciso para entender o livro, está contido nele.
Shadow nos transporta para este mundo oculto das divindades, é através dele que cruzamos o véu e passamos a enxergar estas criaturas fruto da nossa devoção, sacrifício e crença. Esta é uma característica bastante comum nos livros do Gaiman. Seus protagonistas, quase sempre pessoa comuns e sem nada de especial a não ser eles mesmos, são o meio pelo qual experimentamos a fantasia e o sobrenatural. E é aqui que ele peca, pois há pouco de protagonismo nestes personagens, eles são levados por uma sucessão de eventos mas interferem de forma pouco ativa e os conflitos que experimentam não convencem tanto, talvez pela falta de uma personalidade mais forte. É o mesmo problema que tive com Richard Mayhew protagonista de Lugar Nenhum, ainda que no caso de Shadow a apatia se justifique pelo conturbado momento no qual encontramos o personagem.
O livro foi originalmente publicado em 2001, recebendo em 2011, pela comemoração do décimo aniversário de publicação, uma nova versão com capítulos extras. No Brasil a única edição disponível até então era a original, publicada aqui pela editora Conrad. Contudo, a Intrínseca anunciou que publicará em Outubro uma nova edição, com a versão do texto preferida do autor, trazendo além dos capítulos expandidos, artigos, uma entrevista com Gaiman e um novo texto de introdução. Vale mencionar também que o romance venceu os prêmios Hugo e Nebula na categoria de Melhor Romance em 2002, além de ter recebido comentários muito positivos da crítica na época do seu lançamento e que atualmente se encontra em fase de produção um seriado adaptando-o para a TV.
Costumo dizer que nunca pego um livro do Neil Gaiman para ler com baixas expectativas e com este não foi diferente mas acredito que isso possa ter prejudicado minha experiência de leitura pois esperava mais do romance que é exaltado como a obra prima do autor e sinceramente, queria ter gostado muito mais dele. Mas vale a leitura? Vale! Claro! Só foi um pouco mais arrastada do que eu esperava e do que já conhecia de outros livros dele, mas ainda assim o contato com aquelas mitologias, as aventuras de Shadow tentando se encontrar, as presenças marcantes dos coadjuvantes humanos ou não, a surpresa daquele desfecho e toda a jornada e road trip pelos Estados Unidos e sua cultura me divertiram e entreteram bastante. Além disto destaco a forma como a ideia de que somos os humanos que detemos o poder tanto de criar quanto de destruir deuses foi trabalhada no livro, compondo um sistema de crença extremamente interessante e digno de reflexões mais aprofundadas. Para quem já é fã do autor, Deuses Americanos continua um livro indispensável, para quem ainda não é eu recomendaria outros, mas este também traz alguns dos aspectos que tornaram Gaiman o ícone pop e um dos mais celebrados autores contemporâneos e pode também ser um bom pretexto para conhecê-lo.


O Cão




Em meio a um conflito com o povo féerico, um filho de duque pode ser a única forma de trégua pela curiosidade que gera às fadas, que não podem se reproduzir como os humanos. Enquanto enfrenta a passagem à fase adulta, o jovem príncipe deve aprender sobre as diferenças e semelhanças entre esses povos tão distintos.



Título: O Cão
Autora: Leonel Caldela
Editora: Draco
Número de páginas: 17


A minha postagem hoje será um pouco diferente do habitual, afinal pouco falo sobre contos aqui no blog (a última vez foi em 2014 sobre um conto do Eduardo Spohr). Não sei ao certo se por problemas para me aprofundar em textos curtos ou por medo de entregar toda a trama, mas sempre tive dificuldade para falar mais sobre contos. Isso é algo que quero mudar aos poucos, já que existem ótimos contos (e autores) esperando para serem divulgados e mais conhecidos. Para isso nada melhor do que começar falando de um trabalho pouco lido do meu autor favorito, Leonel Caldela.
Após concluir a saga d'As profecias de Urag - narrada em O Caçador de Apóstolos (2010) e Deus Máquina (2011) - Caldela voltou a ambientar uma história naquela realidade. Só que em vez de visitarmos o presente manipulado pelas mãos firmes da igreja somos transportados ao misterioso passado do cenário. Contudo não há com o que se preocupar: não é preciso ter lido nenhum dos dois livros para poder apreciar essa nova história.
O conto O Cão foi lançado inicialmente na coletânea Imaginários volume 4, e agora faz parte de uma série de contos individuais lançados diretamente em e-book - os Contos do Dragão - e você o encontra facilmente para a leitura.
Nesta breve trama de fantasia medieval somos apresentados uma sociedade humana em guerra com o povo feérico e ali conhecemos o filho do duque, um pequeno príncipe cercado de mordomias e cães, mas um deles era o mais especial. Após seu pai retornar de uma batalha contra as fadas o garoto e seu amado cão são surpreendidos com a visita da corte feérica - o rei Áulico Primeiro e a rainha Diva, e seu séquito - e um estranho interesse: ele. Incapazes de criar, as fadas querer estudar o pequeno filho do duque para criar o seu filho perfeito. E talvez, a paz entre os dois povos dependa disso...
Ao longo do texto tomamos ciência da vida de nosso protagonista, sua relação com o cão, o amadurecimento com o passar dos anos e os encontros com a corte feérica. A cada novo encontro um descontentamento cresce em Áulico ao notar a estranha imperfeição em sua cria. E talvez, a resposta para perfeição que busca esteja no relacionamento entre o garoto e seu cão...
Apesar de curto, O Cão é um perfeito exemplo de como a narrativa de Caldela pode ser cativante e simples, embora a trama seja dura. O texto fluido e acessível contribui com que em poucas páginas você crie uma relação com os personagens apresentados, em especial o garoto e seu cão, fundamentais para o andamento da história. Apesar da linearidade da trama, não faltam pontos para surpreender e chocar: o final é um duro golpe no leitor. 
Se você gosta de fantasia, ou simplesmente valoriza uma boa história, a leitura do conto é mais do que recomendada. O Cão é certamente um dos melhores contos que já li na vida!

Multiverso X EP.:08 - Um Outro Papo Sobre RPG






O Navegador, Airechu, o Especialista em Realidades Simuladas, Diogo Fernandes, e os convidados Julio Barcellos, Karen Soarele e Luis Brueh se unem ao Capitão Ace e a Hall-e para falar sobre um tema que fez e faz parte da vida de todos eles (e de muitas outras pessoas por aí): o RPG.
No episódio de hoje novos aventureiros compartilham suas manias na hora de jogar RPG, debatem sobre combo vs interpretação, contam suas histórias memoráveis e outras nem tanto, e falam sobre como conciliar o hobby com a vida adulta e as possibilidades do online! 
Acompanhe-nos, estimado explorador de universos!
COMENTADO DURANTE O PROGRAMA:

RPG - Artigo da Wikipedia
O Que é RPG? - Texto da Jambô Editora
RPG: quero conhecer, e agora? - Texto do Multiverso X
Publicações de Tormenta no Multiverso X: 
O cenário de Fantasia Mais Amado do Brasil - Um Mundo Além do RPG
Review: Tormenta RPG - Outras publicações sobre Tormenta
Publicações de 3D&T no Multiverso X: 
Defensores de Tóquio 3ª Edição: Alpha - Construindo um Personagem - Outras Publicações
Hotsite Série Crônicas de Myríade - Fã Page
Série Cronicas de Myríade resenhas: 
A Rainha da Primavera - A Canção das Estrelas
Línguas de Fogo - Tempestade de Areia

LINKS RELACIONADOS:

New Game Plus - Site sobre jogos onde o Diogo escreve
Papo de Autor: Site da Karen e do Luís

DURAÇÃO: 1h 16min 09seg

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Uma Criatura Dócil




Marcado pela humilhação e pelo orgulho, o narrador acompanha a busca progressiva de sua mulher por liberdade.
Quando escreveu esta obra-prima de 1876, Dostoiévski (1821-1881) já é o grande romancista de Crime e castigo (1866), O idiota (1868) e Os demônios (1872).

A edição é enriquecida com desenhos inéditos de Lasar Segall (1891-1957)



Título: Uma Criatura Dócil
Título Original: Кроткая (Krotkaya)
Coleção: Cosac Naify Portátil #18
Editora: Cosac Naify
Autor: Fiódor Dostoiévski
Tradução: Fátima Bianchi
Ilustrações: Lasar Segall
Número de páginas: 128


Ao lado de Tolstói, Dostoiévski é provavelmente um dos autores russos mais conhecidos e mundialmente celebrados. Já faz um tempo que eu estava disposto a experimentar a leitura de algumas das obras deste autor, e estou particularmente interessado nos seus dois mais famosos romances, Crime e Castigo e Os Irmãos Karamazov, mas antes disto queria formar um pouco mais de bagagem como leitor e começar primeiro com obras mais curtas tais como contos. Eis que a oportunidade, ou pretexto, aparece de repente, quando me deparei com Uma Criatura Dócil numa daquelas promoções da Amazon. A curta sinopse disponível na loja não dava muitos detalhes sobre a obra, mas resolvi me arriscar e fiquei impressionado!
Uma Criatura Dócil é uma novela curta, inspirada numa reportagem de jornal lida por Dostoiévski poucos meses antes da sua publicação em 1876 sobre o suicídio de uma costureira moscovita que viera tentar a sorte na capital do império russo. Este trágico caso, como o próprio Dostoiévski afirma posteriormente, assombrou-o por um longo tempo dadas as suas circunstâncias incomuns e o levou a compor esta novela.
Com uma trama centrada em dois personagens e narrada de forma não linear em primeira pessoa pelo dono de uma casa de penhores atormentado com a recente morte de sua esposa, ainda naquela manhã enquanto tenta entender como aquilo pode acontecer e o que a levara aquilo, esta novela de Dostoiévski já se inicia em seu momento de maior clímax. Diante da evidente tragédia ocorrida em sua casa, o narrador entra numa espécie de frenesi buscando justificar-se e compreender a situação aparentemente inexplicável enquanto dirige-se diretamente ao leitor.
Aqui encontramos uma característica dos grandes autores, explorar situações extremas e temas pouco agradáveis de maneiras únicas e até então não pensadas e ainda conseguir levá-las além. É o soar estranho desta apresentação inicial que nos fisga logo nas primeiras linhas da novela, de modo que não conseguimos largar a leitura até terminar e entender tudo. Conforme o fluxo ininterrupto, ao mesmo tempo lúcido e confuso, de pensamentos do narrador prossegue, conhecemos quem eram ele e ela, o que faziam antes, como conheceram-se e principalmente como a batalha silenciosa que travavam diariamente culminaria na morte de um deles ainda que o livro seja passível das mais diversas interpretações subjetivas, o que não é demérito algum.
O narrador, como já mencionado, é o proprietário de uma casa de penhores, e um de seus clientes mais assíduos era uma jovem de dezesseis anos que penhorava seus poucos itens para anunciar seus serviços de governanta num jornal local. Notando que ela se encontrava numa situação difícil, o narrador busca ajudá-la em alguns momentos, pagando mais do que os objetos penhorados valiam e aos poucos desenvolveu um certo interesse e uma intensa curiosidade sobre a garota.
Investigando mais a fundo, ele descobre que ela está à mercê de duas tias gananciosas e que estas inclusive já haviam lhe arranjado um casamento com um viúvo dono de um armazém. Percebendo que isto seria feito a contra gosto da garota, uma mera jogada de oportunidade das tias, o narrador decide intervir e pede a mão dela em casamento. Após ponderar sobre o próprio futuro, a garota opta por casar-se com ele ao invés do lojista.
Casados e morando na mesma casa em que funciona a loja de penhores, a convivência entre ambos inicialmente é tranquila. Contudo, a falta de diálogo, os desacordos e as diferenças logo se acentuam. Joguinhos de dominação, teimosia, desconfiança e ressentimento minam o relacionamento até o ponto em que ele se torna insuportável. A garota dócil se mostra teimosa e orgulhosa (mas será mesmo?) e o narrador é autoritário, paternalista e avarento em suas ações. Como só temos a visão do narrador dos fatos, e como a situação em que se encontra é de transtorno e desespero, não podemos confiar totalmente nele. E assim, essas duas almas de personalidades tão diferentes, vivendo este relacionamento de conveniência, com generosas pitadas de abuso e tirania vão se desgastando e destruindo a si mesmas.
Esta edição faz parte da Coleção Cosac Naify Portátil, uma espécie de coleção de livros de bolso em brochura e com preços acessíveis composta essencialmente por títulos de sucesso do catálogo da extinta editora Cosac Naify. São ideias para transportar e de leitura confortável, mas são pouco resistentes ao manuseio. Esta edição ainda traz uma introdução do autor composta para a revista no qual a novela foi originalmente publicada em 1876, um breve posfácio com notas sobre a história e os desenhos modernistas de Lasar Segall que ilustram algumas páginas.
Meu primeiro contato com Dostoiévski? foi fantástico! Aliás fantástico é o subtítulo que o autor deu a sua narrativa, obviamente não fazendo referência a fantasia irreal e escapista dos contos de fadas, mas àquela fantasia ilusória que emerge do simples existir cotidiano que em suas minúcias pode se mostrar tão instigante, perigoso e permeado de mistérios quanto qualquer peça ficcional. É uma leitura fácil, isso me surpreendeu muito e é possível terminá-lo num único dia, mas as suas implicações, ah, estas vão lhe acompanhar ainda por um bom tempo e por mais que busquemos encontrar um ponto positivo naquele desfecho, o mais assustador talvez seja se dar conta de que isto, por mais deprimente que seja, inexiste. Fantástico, ainda que triste. Recomendo Uma Criatura Dócil para quem, assim como eu, quer começar a ler autores russos, para quem gosta de contos curtos, histórias de mistério, suspense, tragédias e intensos dramas conjugais.